quinta-feira, 1 de abril de 2010

Paradoxo da burrice – burro é o outro

Paradoxo da burrice – burro é o outro
José Rogério de Pinho Andrade

Trata-se de uma adaptação do texto da filósofa Márcia Tiburi que se encontra na revista Cult na edição nº143, ano 13.
Em seu texto a filósofa Márcia Tiburi (doravante filósofa) demonstra preocupação com o uso da palavra burrice e, por isto, busca justificá-la. Ela então propõe que a palavra seja utilizada extrapolando as dimensões do xingamento, que habitualmente é pronunciada para tratar da burrice alheia.
Como parece que ninguém se “imagina o portador da burrice”, passa a considerá-la como objeto. Neste caso, ao prestarmos atenção na burrice já estaríamos na contramão dela própria. Toda análise do objeto, pondera a filósofa, deve proporcionar uma abertura ao próprio objeto deixando-se influenciar por ele, o que parece não agradar a ninguém no caso da burrice, pois não é de se esperar ser influenciado por tal objeto.
Eis então, o início do paradoxo: pensar na burrice é correr o risco de se influenciar por ela, mas não pensar nela, é realizá-la. Isto me lembra um ditado popular que diz mais ou menos o seguinte: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Do mesmo modo, e mais inteligente, é o pensamento de Aristóteles que expressa a seguinte ideia: “se se deve filosofar, deve-se filosofar, se não se deve filosofar, deve-se filosofar, então deve-se filosofar”. Por isto uma vida sem filosofia não vale a pena ser vivida.
Mas como a filósofa afirma o paradoxo não cessa aí. Ele se distende e se renova, o que é mais grave, por meio dos xingamentos, quando adjetivamos os outros com a burrice. Mesmo que o xingamento se dirija ao próprio sujeito, ele parece se dirigir a alguém ou algo estranho, como se não se referisse a ele próprio como sujeito, é o que ela diz.
Pondera ainda a filósofa, que praticar o xingamento gratuitamente não é uma atitude sábia, pois parece demonstrar a atitude “de quem não usa a capacidade para entender o que o outro carrega em palavras e atos que fazem com que o chamemos de burro/idiota/imbecil”. Isto é, um bom julgador por si, julga os outros. Ao adjetivarmos alguém com a burrice, nos esquecemos de avaliar que a maneira diferente de o outro ser e agir é apenas uma das diversas maneiras de pensarmos e agirmos e que, deste modo, a nossa própria maneira de pensar e agir não é necessariamente mais inteligente do que a de ninguém. Julgar o outro pela burrice dele é não pensar em nossa própria burrice.
Não é o propósito da filósofa afirmar a inexistência dos “burros”, mas refletir sobre a condição de que ao usarmos a palavra para atribuirmos qualidades aos outros, ela se volta contra nós mesmos. Pois, como ela afirma “chamar o outro de burro demonstra que não pensei nele e, se não pensei nele, sou burro antes de parecer inteligente pela rapidez com que o heterodetermino”. Deste modo, estaremos diante da falta de autocrítica.
Valendo-se da História da Filosofia, a filósofa exemplifique alguns modos de como a burrice foi pensada. Para Kant, diz ela, em seu Ensaio sobre as Doenças Mentais a burrice é uma doença que diz respeito à falta de entendimento. Para Nietzsche, a burrice é uma espécie de viseira que “estreita as perspectivas”.
Mas é com a referência ao pensamento de Roberto Musil em conferência proferida no ano de 1937 que seu texto ganha em explicação. Ela diz que para o referido conferencista, a burrice se confunde com o que os antigos chamavam de “espírito” e que este, por sua vez, está associado às expressões juvenis tais como “tá ligado?”. Quando alguém pergunta “tá ligado?”, diz ela, pesquisa a inteligência do outro. Ora, isto quer dizer que o outro parece ter a obrigação de entender o que o eu fala, como se fosse, por si mesma, uma fala inteligível e se o outro não a entende é por causa de sua própria burrice.
Então, continua a filósofa, falar da burrice alheia é sustentar “a sua própria inteligência contra tudo e contra todos, em vez de atuar no politicamente correto, humildemente dizendo que é um burro falando de bestas.” Apoiando-se nas ideias de Musil, ela ainda afirma que “pode ser estúpido parecer inteligente, mas nem sempre é inteligente passar por estúpido. O medo de parecer estúpido também fará com que alguns se sintam inteligentes evitando dizê-lo. Pior ainda se seu desejo de parecer burro for associado à vaidade: o estúpido é sempre vaidoso porque não tem inteligência para ocultar.” (...)
Outra abordagem adotada pela filósofa é a consideração da burrice como categoria moral. Neste caso ela se apropria do pensamento de Adorno que compara a burrice a uma paralisia. A burrice está associada à deformação da capacidade de pensar, de criar e também de agir que resulta de uma inibição resultante de experiências negativas. Assim, não é burro apenas quem pensa errado, mas quem pensa e age com inibição.
A filósofa considera que no Brasil a burrice como categoria moral parece estar em vigência. Isto porque “A ausência de debate, de espírito crítico, o culto da ignorância ou a política do xingamento, a aceitação de qualquer ideia como ‘politicamente correta’ ou ‘incorreta’ – para muitos o correto hoje é ser incorreto, mas raramente alguém se pergunta sobre isso –, sem a verificação da pertinência de cada ideia em si mesma e em sua conexão com o que está ao redor, são traços visíveis da cultura no cotidiano e nos meios de comunicação. Bem como no debate acadêmico de cunho fundamentalista, aquele que se aferra a ideias prontas ou simplesmente crê na exegese dos textos ou na mera aplicação dos métodos, como encontro da verdade.”
E conclui suas ideias da seguinte forma: “Nesse sentido, seria bom rever a história do conhecimento em relação às ideias prontas que também são falhas, mas seria melhor ainda começar por refazer a história pensando em como não repeti-la.”
Eu do meu lado me aproprio das palavras da filósofa e encerro o meu texto reproduzindo por meio do senso comum o sentido de tais ideias em torno da burrice: “quem muito olha para a vida alheia esquece-se da sua própria.”

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