terça-feira, 25 de maio de 2010

"Ideologia na cartilha", uma resposta possível.

"Ideologia na cartilha", uma resposta possível.
José Rogério de Pinho Andrade

Em reportagem da revista “Veja” do dia 31/03/2010 intitulada “Ideologia na cartilha” escrita por Marcelo Bertolotti (quem?), ele professa um festival de ideologias e baboseiras contrariando a obrigatoriedade da inclusão das disciplinas de filosofia e sociologia na educação básica brasileira em especial no ensino médio. Como não poderia ser tão diferente do posicionamento editorial da revista, a reportagem do referido jornalista (nem sei se o é de formação, o que parece não ter tanta importância no Brasil) é prá lá de tendenciosa, pois que ele reproduz aquilo que parece criticar ao afirmar que as disciplinas de filosofia e de sociologia possuem características de superficialidade e de panfletarismo. Além do mais, em vários trechos ele toma a parte pelo todo, demonstrando pouco ou nenhum conhecimento daquilo que escreve. Vejamos então do que se trata.

De menor importância, cabe destacar que em algumas situações particulares o currículo elaborado não corresponde àquilo que se espera de uma educação escolar básica de que se pretenda de qualidade. É óbvio que não é tarefa da sociologia preparar os alunos para a elaboração de “regimentos internos para sindicatos de trabalhadores” e, concordamos com ele, isto é um “verdadeiro absurdo”. No entanto, já não nos soa tão absurda a ideia de que o desemprego esteja associado à questão estrutural da sociedade capitalista, mesmo que esta mesma estrutura tenha, historicamente, em outras tantas oportunidades criado também oportunidades de emprego. O mínimo que uma economia pautada no consumo e na produção de excedentes pode produzir é a geração de postos de empregos, pois é por meio do trabalho que a riqueza social é produzida. Mas não se pode esquecer que o avanço da tecnologia como força produtiva tende a diminuir, e até extinguir, outros postos de empregos (trabalho).

É ponto comum de concordância a ideia que “algumas” aulas de filosofia e sociologia não dão “às questões a complexidade que elas merecem.” Mas, ainda bem (ou não!) que isto não é exclusividade dessas disciplinas, pois o que podemos falar das aulas de matemática (“que é bom...”) que são ministradas por este Brasil à fora? A problematização desenvolvida pela física está restrita às suas fórmulas? E o que dizer da biologia e da química? Deverão ser desenvolvidas sem suas complexas problematizações? A literatura então nem pensar, ler Machado de Assis, Camões e Shakespeare na escola deveria ser proibido? Se considerarmos esta argumentação pífia do jornalista, não teríamos nenhuma disciplina (ou melhor, educação escolar) obrigatória, pois todas elas têm a sua complexidade, são obrigatórias e não atendem (pelo menos ainda não) ao propósito de alguma educação que pretenda ser ampliação de visão de mundo.

Às vezes eu me pergunto: quando vão deixar de associar Karl Marx a qualquer ideologia de esquerda? E o que é pior, a algo de caráter ruim, a alguma espécie de câncer ou chaga? Se “hoje” suas ideias parecem anacrônicas, “ontem” elas serviram para que a sociedade capitalista revisse e modificasse parte de suas estruturas. Só para constar, será que em nada as críticas elaboradas por ele sobre a sociedade capitalista contribuíram para o desenvolvimento dos assim chamados direitos sociais?

O jornalista (?) fala da “implosão do comunismo no mundo”, mas esquece de comentar a implosão bem anterior do modelo capitalista. Em suas origens liberais, o capitalismo consolidou-se na ideia do livre mercado e da não-intervenção do poder público (Estado) – em especial – na economia. O que teria sobrado do capitalismo sem a intervenção do Estado (proposta socialista) nas diversas crises econômicas surgidas, principalmente, a partir do século XX até a mais recente do final de 2009? Além do mais, o princípio da Fraternidade tão caro às ideias liberais, em alguma sociedade de economia capitalista deixou de ser ideológico ou tenha se realizado nas ações sociais?

Causa-me surpresa e desconfiança a afirmação atribuída à educadora Tereza Pontual quando reconhece: “Se criássemos diretrizes distantes demais da realidade dos professores, eles simplesmente não as aplicariam na sala de aula – fomos apenas realistas.” A desconfiança está associada à formação acadêmica da mesma: qual é mesmo ela? A surpresa se traduz nos questionamentos que faço: de qual realidade dos professores ela trata, a da qualidade e competência técnica e pedagógica dos mesmos ou das condições precaríssimas de trabalho deles? Que diretrizes seriam essas elaboradas distantes da realidade dos professores? Os professores foram consultados e participaram da elaboração de tais diretrizes demonstrando respeito a eles e ao espírito democrático? Ou será que foram elas elaboradas nos gabinetes e, assim, distantes da realidade dos professores e de todos os envolvidos diretamente no desenvolvimento da educação?

É bem sabido que a formação dos professores no Brasil, em todas as áreas, é horrível e, bem pior são as condições de realização de suas atividades profissionais (inclua-se a remuneração!). Bem tem razão Tânia Zagury em sua obra O professor refém quando demonstra que neste país as decisões que envolvem a educação e o papel dos professores são, na maioria das vezes, tomadas sem a participação destes últimos e muito menos sem dar-lhes as condições para efetivá-las.

Quanto à sua argumentação falaciosa de que a explicação utilizada pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC fora ratificada pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso e que levou ao veto, em 2001, de um projeto de lei com o propósito de tornar obrigatória a inclusão das disciplinas de filosofia e de sociologia no currículo do ensino médio “de que os gastos para os Estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender a nova demanda” é no mínimo ridícula. Algumas razões: o déficit atual de professores nas disciplinas de matemática, física, química e biologia é muito grande e nem por isto elas deixaram de ser componentes curriculares obrigatórios.

É de provocar temor o pensamento do sociólogo Bolivar Lamounier de que não há gente qualificada para desempenhar a função de professor de filosofia e de sociologia no Brasil, pois se condicionarmos à existência de pessoas qualificadas para o desenvolvimento de certas funções, primeiramente teríamos que qualificar as pessoas, para posteriormente criarmos as funções a serem desempenhadas. Quem em sã consciência procuraria uma qualificação profissional na incerteza da possibilidade de realizá-la? Penso eu que esta é uma via de sentido duplo, isto é, na medida em que há a possibilidade de exercer as funções, os profissionais se qualificam e vice-versa.

O que é preciso em termos emergenciais ser feito no Brasil, é oportunizar a qualificação dos profissionais que já atuam no mercado (e não é válido somente para os professores das disciplinas de filosofia e sociologia) e ampliar as possibilidades do mercado que são imensas. Não será restringindo a possibilidade de exercer a profissão que o profissional terá a sua qualificação, pelo contrário, é criando novas e melhores condições para o exercício de sua profissão que o professor irá buscar a sua melhor qualificação.

Mais triste ainda, e lamentável, é o entendimento recheado de acepções ideológicas do diretor de escola particular de São Paulo, Sílvio Barini, que utiliza a “experiência” recente das próprias escolas de que “Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica”! Falo isto porque, parece ele esquecer (ou desconhecer) que o modelo estrutural de educação escolar de nossa sociedade é, em si mesma, ideológica. Não há educação descomprometida com algum ideal de mundo, de homem e de sociedade, pelo menos que seja séria.

Destaque-se o fato de que os professores somente serão bons professores se sua prática traduzir alguma ideologia. Não há ciência e nem saber neutro. O professor é um formador de opinião, caso ele não tenha uma própria não será um bom professor. É bem certo que não é do professor de quaisquer disciplinas a tarefa de impor verdades, muito menos as suas ideologias pessoais, mas é sim sua a tarefa de discutir as diversas ideologias que compõem a trama da existência social, inclusive aquelas que são próprias da escola como instituição social.

Valendo-me dos jargões condenados pelo autor da reportagem, aqueles que podem pagar por uma educação escolar privada preparam seu filhos para ocuparem os postos sociais de mando, já os outros que dependem da escola pública, aprendem a condição de obediência. Esta parecer ser a regra geral para a educação básica: se tem recurso privado, uma melhor escola, caso contrário, uma escola pior. No entanto, a situação se inverte quando o assunto é educação superior: o de melhor qualidade é gratuito, mas ocupado em sua maior parte por quem pode pagar uma educação básica melhor. Neste nível de ensino os gastos com os professores são maiores do que com os da educação básica.

Se é bem verdade que os países “mais avançados em sala de aula” oferecem estas disciplinas apenas como eletivas, então, ao menos assim elas deveriam ser oferecidas na educação brasileira. Em muito os países “mais avançados” se distanciaram de nós em termos de qualidade educacional de modo a proporcionar uma maior possibilidade de escolha que possa contribuir para uma compreensão crítica de seu mundo, de si e de sua sociedade. O mesmo não se dá entre nós, brasileiros e latino americanos, onde a educação básica ainda é considerada privilégio e não direito.

Por fim o autor afirma que “em outros países da América Latina, esse tipo de iniciativa também costuma resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda, preponderante nas escolas (...)”. Ideologia de direita é permitida, de esquerda não? Qual o critério utilizado para determinar se a ideologia de esquerda é melhor ou pior do que a de direita? De que excelência o autor fala quando afirma que o Brasil deve buscá-la? E ainda vem ele me falar de ideologias e “conceitos simplificados e de velhos chavões”!

Poderia o autor se perguntar por que será que no Brasil e nos países da América Latina estas disciplinas tendem a “resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda”? Seria a resposta associada à alguma eventualidade histórica de caráter ditatorial de nossa política? Porque será que os países “mais avançados em sala de aula oferecem estas disciplinas apenas como eletivas”? E, considerando-se a nossa tradição autoritária e atrasada em sala de aula, tais disciplinas quando não são ofertadas de modo obrigatório o são de outro modo, ao menos eletivamente?

Admiro os textos e os posicionamentos do economista Cláudio de Moura, mas espero que as suas palavras tenham sido utilizadas de modo falacioso pelo autor da reportagem em questão quando se vale da autoridade que é o articulista, para mais uma vez tentar justificar a sua posição contrária à obrigatoriedade (e conseguintemente a não inclusão) das disciplinas de filosofia e de sociologia no currículo da educação básica brasileira. Segundo o articulista citado pelo autor, “os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos alcancem a complexidade dos temas da sociologia ou da filosofia (grifo nosso) – ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, com o Brasil.” Ora, pela lógica, o mesmo deveria acontecer com as disciplinas de literatura, com a geometria, com a matemática, etc. Assim sendo, porque tornar tais disciplinas também obrigatórias, aliás, porque falarmos em educação básica obrigatória? De que educação básica estaríamos falando?

Penso eu que é somente oferecendo mais aos alunos da educação básica que poderemos dar “o necessário passo rumo à excelência.” O problema não está na inclusão obrigatória de disciplinas como filosofia e sociologia, ou quaisquer outras que sejam, pois o Brasil deveria fazer como “os países mais avançados em sala de aula” onde os alunos passam mais tempo (e de melhor qualidade) na escola e os professores são melhor remunerados e qualificados. Defendo a ideia de que quanto mais conhecimento, melhor a nossa visão de mundo e, prá isto, mais disciplinas deveriam fazer parte do currículo obrigatório (ou não) da educação básica, tais como, música, teatro, cinema e fotografia, mecânica básica e economia doméstica, artes manuais, etc.

É com mais tempo na escola e com melhor qualidade de conteúdo, com professores mais qualificados e melhor remunerados que poderemos dar “o necessário passo rumo à excelência.”

3 comentários:

  1. Olá,
    Tive contato com o teu blog no filosofia é o limite da profa. Marise Frühauf.
    Agora vim conhecê-lo e seguí-lo.
    Desde já és convidado a visitar o meu.
    Saúde e felicidade.
    João Pedro Metz

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  2. Obrigado pela visita e já fiz o mesmo com o seu blog.
    Saudações jusfilosóficas,
    Rogério Andrade

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  3. PARABÉNS PELO BELÍSSIMO TEXTO BEM FUNDAMENTADO! TAMBÉM ME MANIFESTEI SOBRE ESSE TEXTO DA VEJA SÓ QUE EM FORMA DE CARTA. WWW.DESCONFIEDAVEJA.BLOGSPOT.COM
    UM ABRAÇO,
    ROMULO CRUZ

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