terça-feira, 31 de janeiro de 2017

As três peneiras

Um dia um homem foi consultar o filósofo Sócrates e lhe disse:
- Ouça, Sócrates, eu preciso lhe dizer como foi que seu amigo se comportou.
- Interrompo você de cara! - respondeu Sócrates. - Você pensou em passar pelas três peneiras o que me vai dizer?
E como o homem olhava para ele com olhar de espanto, completou:
- Pois é. Antes de falar, é preciso passar pelas três peneiras o que se vai dizer. Vejamos. A primeira peneira é a da verdade. Você verificou se isso que você tem para me contar está realmente correto?
- Não, eu ouvi dizer e ...
- Tudo bem! Mas suponho que você fez passar pelo menos pela segunda peneira, que é a da bondade. O que você quer me contar é, ao menos, uma coisa boa?
O homem hesitou e depois respondeu:
- Não, infelizmente não é nada de bom, ao contrário...
- Hum!... observou o filósofo. - Ainda assim, vejamos a terceira peneira. O que você está com vontade de me dizer é uma coisa útil para se contar?
- Útil? Não é bem assim...
- Então não falemos mais nisso! - disse Sócrates. - Se o que você tem para me dizer não é verdadeiro, nem bom, nem útil, prefiro ignorá-lo. E até aconselho você a esquecer...
(Apólogo do filósofo grego Sócrates)
In: PIQUEMAL, Michel. Fábulas filosóficas. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009. p.42-43

Os porcos-espinho

Um dia friorento de inverno, os porcos-espinho se grudavam uns com os outros, para se manterem aquecidos. Mas, de tantos se estreitarem, logo sentiram a dor dos espinhos que espetavam e tiveram de se afastar. Quando sentiram muito, muito frio, o instinto os empurrou para se aconchegarem mais. Entretanto, sentiram novamente as picadas dos espinhos. E assim foram juntando-se e se separando diversas vezes, até encontrarem finalmente a distância certa.
(Fábula contada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer - 1788/1860)

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Thomas Hobbes - Excertos

"Cabe ao homem sensato só acreditar naquilo que a reta razão lhe apontar como crivel. Se desaparecesse este temor supersticioso dos espíritos, e com ele os prognósticos tirados dos sonhos, as falsas profecias, e muitas outras coisas dele dependentes, graças às quais pessoas ambiciosas e astutas abusam da credibilidade da gente simples, os homens estariam muito mais preparados do que agora para a obediência civil". 
(p. 22-23)


"É  portanto evidente que tudo aquilo em que acreditemos, baseados em nenhuma outra razão senão tão-só a autoridade dos homens e dos seus escritos, quer eles tenham ou não sido enviados por Deus, a nossa fé será apenas fé nos homens". (p. 61)
Os homens "Quando aprovam uma opinião particular chamam-lhe opinião, e quando não gostam dela chamam-lhe heresia; contudo, heresia significa simplesmente uma opinião particular, apenas com mais algumas tintas de cólera". (p. 89)

"Desta guerra de todos os homens contra todos os homens também isto é consequência: que nada pode ser injusto. As noções de certo e de errado, de justiça e de injustiça, não podem aí ter lugar. Onde não há poder comum não há lei, e onde não há lei não injustiça. [...] A justiça e a injustiça não fazem parte das faculdades do corpo ou do espírito. [...] São qualidades que pertencem aos homens em sociedade, não na solidão". (p. 111)

Fonte: 
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2014. 
Biblioteca particular.

PS: A ser atualizado

domingo, 16 de março de 2014

Infância Antigamente Moderna

A infância será sempre uma época em nossas vidas marcada pela magia, pela amizade inconsciente e sincera, pureza, solidariedade e afetos, com tablet ou não.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Tratado sobre a tolerância (recortes) - Voltaire

"Sabe-se demais quais foram os custos desde que os cristãos começaram a  disputar por dogmas: correu sangue, seja nos cadafalsos, seja nas batalhas, desde o século quatorze até os dias de hoje." (p. 23)

"A filosofia, unicamente a filosofia, irmã da religião,  desarmou as mãos que a superstição havia ensaguentado por tanto tempo; e o espírito humano, ao despertar de sua embriaguez, assombrou-se ante os excessos a que o havia lançado o fanatismo". (p. 30)

"Quando não se busca magoar os corações,  todos os corações estão a nosso favor". (p. 30)

"O melhor método de diminuir o número de maníacos,  se é que existe, é o de deixar essa doença do espírito sob o controle da razão,  que esclarece aos homens lentamente, mas de maneira infalível". (p. 36)

"O direito da intolerância é,  portanto, absurdo e bárbaro,  é o direito dos tigres, sendo bem mais horrível também, porque os tigres dilaceram suas presas para comer, enquanto nós nos exterminamos por causa de alguns parágrafos". (p. 39)

"'Deorum offensae diis curae' (somente os deuses devem ocupar-se das ofensas feitas aos deuses)". (p. 43)

"Eu afirmo cheio de horror, mas com veracidade: somos nós,  os cristãos,  somos nós os perseguidores, os carrascos e os assassinos! De quem? De nossos irmãos". (p. 60)

"Quanto mais a religião cristã é divina, tanto menos pertence ao homem dirigi-la: se foi Deus que a fez, Deus a sustentará sem a nossa ajuda. Você sabe que a intolerância apenas produz hipócritas ou rebeldes: que alternativa funesta!" (p. 63)

"A Escritura nos ensina, portanto, que Deus não só tolerava todos os outros povos, mas que também lhes demonstrava cuidados paternais. E nós ousamos ser intolerantes!" (p. 75)

"Agora eu indago: é a tolerância ou a intolerância que provém do direito divino? Se quereis vos assemelhar a Jesus Cristo, sede mártires, e não carrascos". (p. 86)

"Um ateu polêmico, violento e robusto seria um flagelo tão funesto quanto um supersticioso sanguinário". (p. 103)

"Em qualquer lugar em que houver uma sociedade estabelecida, uma religião é  necessária; as leis reprimem os crimes conhecidos, enquanto a religião se encarrega dos crimes secretos". (p. 103)

"Não é preciso ter grande arte nem dispor de eloquência bem-elaborada para provar que os cristãos devem tolerar uns aos outros. Mas eu vou mais longe: eu lhes digo que é  necessário considerar todos os homens como nossos irmãos". (p. 109)