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domingo, 6 de março de 2022

COMENDO DA LATA DO LIXO DA IDEOLOGIA - TEMPERO DRAG

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Levítico: formação de um povo santo

Por: José Rogério de Pinho Andrade.


A Bíblia é de fato um conjunto de livros fantásticos e interessantíssimos! Terminada a leitura do livro “LEVÍTICO” aprendi que o ideal proposto ao povo liberto por Deus da escravidão do Egito, basicamente consiste em cultuar o Deus libertador, reconhecendo seus dons por meio de sacrifícios minuciosamente explicados, servi-lo por intermédio dos sacerdotes e comungar com Ele através do perdão procurando “ser santo como o próprio Javé é santo”. (Lv. 19, 2).
A santidade consiste em oferecer cultos ao Deus libertador e, fundamentalmente, em viver a justiça e o amor de Deus (Javé) nas relações e práticas concretas, traduzindo-se no mandamento fundamental de toda a ética: “ame o seu próximo como a si mesmo”. (Lv. 19, 18). A lei de Santidade estabelece interdições e deveres que vão da proibição de culto a deuses falsos (Lv. 17, 7) e ao deus da morte (Lv. 20, 1-7), passando pelas uniões sexuais (Lv. 18, 1-30) e pela ingestão de determinados alimentos considerados sagrados (Lv. 22. 1-33), dentre outras condutas.
Dentre os deveres, a lei de Santidade (Lv. 19, 1-37) estabelece a obrigação de respeitar a família (Lv. 20, 8-21) e de guardar e colocar em prática a Lei (Lv. 20, 22-27) e da obrigação que têm os sacerdotes de manterem-se santos e puros (Lv. 21, 1-24).
Minha atenção foi especialmente atraída pela dedicação que o texto bíblico dá ao trabalho e à necessidade de descanso (ócio), ambos considerados sagrados, principalmente pela proclamação das assembleias sagradas, as festas do ano (Lv. 23, 1-44): o texto é prodigioso na determinação de períodos de descanso, pois, além dos Sábados, há pelo menos sete dias de descanso associados a seis dias de festas sagradas.
Quanto à justiça, a lei aparenta ser dura, principalmente quanto à agressão física ao outro, entretanto, também é justa, pois estabelece que: “se alguém ferir o seu próximo, deverá ser feito para ele aquilo que ele fez para o outro: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente”. (Lv. 24, 19).
Correndo o risco da heresia, em uma leitura associada ao contexto político atual, para alguns o texto poderia ser associado a algum tipo de “manifesto esquerdista-comunista”, principalmente quando afirma que “todos têm o direito à terra e à casa própria” (Lv. 25, 23-34) e que é “proibido se aproveitar da miséria alheia” (Lv. 25, 35-42), bem como é proibido “escravizar o povo” (Lv. 25, 44-55).
Esplendorosamente rico em detalhes sobre a conduta humana e sobre a promessa de Deus para os homens, o livro bíblico “Levítico” está sujeito (como todos os demais livros, bíblicos ou não) às apropriações inadequadas feitas pelos diversos interesses ideológicos próprios da condição política e moral do ser humano. Para mim, entretanto, foi uma aprendizagem a mais e, como sempre oriento meus alunos, pensar e saber mais com a leitura dos clássicos é (ou deveria ser) uma obrigação de todos nós. Nada mais clássico do que a Bíblia!

Referência:

BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990.
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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O que é Ideologia

O que é Ideologia.
José Rogério de Pinho Andrade

O conceito de ideologia é essencialmente moderno, pois as explicações da realidade anteriormente eram dadas pelos mitos ou pelo pensamento religioso. Em seu significado é utilizado para indicar uma doutrina “mais ou menos destituída de validade objetiva, porém mantida pelos interesses claros ou ocultos daqueles que a utilizam”. (ABBAGNANO, 2000)
Hoje se entende por ideologia o conjunto dessas crenças, porquanto só têm a validade de expressar certa fase das relações econômicas e, portanto, de servir à defesa dos interesses que prevalecem em cada fase desta relação.
Este termo Ideologia foi criado por Destutt de Tracy, filósofo francês, no final do século XVIII para designar “a análise das sensações e das idéias”. Em seu livro “Elementos de ideologia” (1801) ela foi compreendida como “ciência da gênese das idéias”. Ele procurou elaborar uma explicação para os fenômenos sensíveis que interferem na formação das idéias, isto é, a vontade, a razão, a percepção e a memória. Ele partiu da crença na razão e no poder da ciência em submeter as idéias ao mesmo processo de análise e compreensão dos objetos naturais.
Napoleão Bonaparte entendeu o conceito de ideologia como “idéia falsa” ou “ilusão” considerando-a como a compreensão de um discurso metafísico e distante da realidade. De caráter depreciativo, o termo designava a postura daqueles que se encontravam alheios à realidade, pois carentes de senso político, suas idéias foram consideradas desconexas da realidade em que viviam.
Augusto Comte (1798 – 1857) o compreendia como o estudo da formação das idéias a partir das sensações (relação do homem como o meio), mas acrescentou o sentido de conjunto das idéias de determinada época.
Para Raymond Williams o conceito de ideologia pode ser entendido a partir de três concepções básicas:
a)     Como sistema de crenças de uma classe ou grupo social.
b)    Como sistema de crenças ilusórias – o que se chamava de “falsa consciência”.
c)     Como processo geral de produção de significados e idéias.
Karl Marx não apresentou um único sentido para o termo ideologia. No livro “Ideologia alemã” (1846), ele se referiu ao conceito de ideologia como um sistema elaborado de representações e de idéias que correspondem a formas de consciência que os homens possuem em determinadas épocas e que seriam o resultado de como se organizam as formas de produção. Assim, ele considerou o termo a partir de seus três elementos básicos que caracterizarão sua compreensão da sociedade capitalista, a saber: 
a)     Separação: resultante da divisão da vida humana em duas instâncias específica: a infra-estrutura (esfera da produção material) e a superestrutura (produção das idéias). A primeira se compõe da economia (a produção dos bens necessários à sobrevivência dos homens) e, a segunda, se constitui da moral, do direito, da política e das artes.
b)    Determinação: relação decorrente da separação entre infra-estrutura e superestrutura onde se observa que a primeira determina e condiciona a segunda. No entanto, esta reproduz a primeira.
c)     Inversão: considerada distorção da realidade. A ideologia apresenta aos homens a realidade de modo inversa àquilo que é. O conhecimento científico seria capaz de colocar o mundo como ele é, pois revelaria os mecanismos de separação e determinação da realidade.
Émile Durkheim ao discutir a questão da objetividade científica, afirma que para ser o mais preciso possível, o pesquisador precisa deixar de lado todas as pré-noções e as idéias subjetivas. São essas idéias que ele entende por ideologia. Seria ela assim o contrário de ciência.
Karl Mannheim (1893 – 1947) no livro “Ideologia e Utopia” (1929) identifica duas formas para a ideologia: uma particular e outra total. A particular corresponde à ocultação da realidade que provoca engano. A ideologia total é a visão de mundo (cosmovisão) de uma classe social ou de uma época. Nesse caso não há ocultamento, apenas a reprodução das idéias gerais que permeiam uma sociedade. As ideologias são sempre conservadoras, pois expressam as idéias da classe dominante, e visam à estabilização da ordem. Em contraposição, chama de utopia o que pensam as classes oprimidas, que buscam a transformação. 
O filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Júnior nos fala de ideologia a partir de três características fundamentais, a saber:
a)     “A primeira característica de um conjunto de idéias que se pode chamar de ideologia é a de vir antes que qualquer outra coisa. Ela pertence ao que se quer mostrar e, de preferência, em primeiro plano. Ora, mas há outras duas características da ideologia.”
b) “A segunda característica é a busca de universalidade a qualquer preço. Um conjunto de idéias que é bem particular, que não tem grande força lógica para se tornar universal e, no entanto, busca se tornar universal e quer ser uma verdade independente de todos e uma verdade para todos, já está funcionando como ideologia. É próprio de um conjunto de idéias que se quer transformar em ideologia procurar se colocar de modo abstrato, para ganhar universalidade.”
c)     “A terceira característica da ideologia é que ela quer antes mostrar a verdade “que se tem de seguir” do que um conjunto de enunciados que, possa levar à reflexão a respeito de outros conjuntos de enunciados e assim por diante. Ela, a ideologia, aceita pouco aquilo que Robert Brandom, louvado por Rorty, chamou de “o jogo de dar e pedir razões”. Nesse sentido, é próprio da ideologia o engodo, a ilusão ou o erro.

Em geral, pode-se denominar ideologia toda crença usada para controle dos comportamentos coletivos que pode ter validade objetiva ou não. A crença vira ideologia não por ser válida ou não, mas a ter a sua capacidade de controlar os comportamentos em determinada situação.
A proteção contra a ideologia é o uso da razão. Todavia, temos de nos lembrar que o uso da razão, a racionalização de tudo, pode também ser ideológica.

domingo, 3 de abril de 2011

“Governo do Estado paga piso com valor bem acima do fixado pelo MEC”: alguns contrapontos.

A reportagem do jornal "O Estado do Maranhão" do dia 03 de abril de 2011, publicada no caderno Geral à página 10, bem poderia ter sido publicada no dia 01 do mesmo mês, o dia da mentira. Não estou dizendo que a reportagem é mentirosa, mas no mínimo “esquece” de esclarecer algumas informações.

A primeira delas: como bem dito na reportagem o piso salarial definido pela Lei nº 11.738/2008 corresponde à formação do professor em nível médio e não em nível superior. Assim, é preciso dizer que o salário de “R$ 1.631,00” que o estado paga corresponde ao nível inicial da carreira de professor para o ensino médio (nível 19). Este valor informado corresponde ao que recebem os professores de ensino médio (nível 19) que é de R$ 709,43 (ver: http://www.al.ma.gov.br/diario/diario05-11-09.pdf) mais a GAM (Gratificação por Atividade do Magistério que corresponde ao acréscimo de 130% ao vencimento básico). Para ocupar o cargo de professor neste nível de ensino a exigência é de graduação em licenciatura plena.

Com a informação dada nem o jornal e nem o governo mentem, mas a dissimulam. O que dá a entender é que todos os professores do estado do Maranhão iniciam suas carreiras com este salário, o que não é verdade: os professores de ensino fundamental têm como salário de início de carreira (nível 1) o valor de vencimentos básicos (sem a gratificação por atividade de magistério GAM no valor de 130% do vencimento básico) o montante de R$ 427,49.

A reportagem afirma: “Vale dizer que o piso do professor de ensino médio do Maranhão é muitas vezes superior à média de rendimentos de um trabalhador com o mesmo nível de ensino em todo o brasil.” Por meio dos dados informados isto parece bem verdadeiro, mas é preciso olhar que estamos comparando com aqueles que ganham menos. Senão vejamos: policial da PM do Maranhão em início de carreira e com formação de nível médio o salário é de R$ 2.028,00 e como aluno do curso de formação de oficiais recebe uma bolsa de 50% do que recebe o policial; policial civil do Maranhão: investigador e escrivão (com nível superior) R$ 2.560,06, delegado de polícia (nível superior) R$ 10.516,22. Vários cargos de nível médio no Judiciário remuneram melhor do que o salário de professor, mesmo sendo no estado do Maranhão onde se tem a melhor remuneração como professor neste país!

E, não menos importante, no final a reportagem reforça que as vantagens que nós temos aqui e não existem em nenhum outro estado da Federação são exceções à regra e por isto mesmo (cuidado professores!) são privilégios, quando deveriam ser reconhecidas como direitos. Refiro-me ao fato de que no Maranhão os professores com 20 (vinte) anos de exercício de magistério e 50 (cinquenta) de idade têm sua carga horária reduzida para a metade sem perda de rendimento. Ora, assim deveria ser em todas as outras unidades da federação. Os professores de um modo geral neste país deveriam era receber adicionais e incentivos outros, pois do modo como se desenvolve e se valoriza a educação neste país, até adicional de periculosidade deveriam os professores ter direito.

Na mesma página, o Jornal noticia que “Professores acumulam matrículas no Maranhão e em outros estados” e nela encontramos que “cerca de 20% dos professores do ensino médio acumulam matrículas em diferentes escolas no Maranhão e de outros estados.” Nesta situação estão alguns na legalidade e outros na ilegalidade. Bom, os que estão na legalidade somente acumulam para terem um salário um pouco melhor e, com isto uma vida também um pouco melhor, pelos menos é o que aparenta ser. Do mesmo modo, aqueles que estão na ilegalidade, também o fazem na mesma expectativa, embora de maneira errada. Mas a quem cabe a fiscalização de tal situação? Ao Estado (Brasil) e aos estados (entes federados). Assim, o que podemos identificar é a ineficiência do Estado em cumprir o seu papel de organizador da educação do povo brasileiro.

Em todos os países em que a educação é levada a sério, os professores são valorizados social e profissionalmente e muito bem pagos, não apenas na rede pública de educação, mas também na rede particular, que por aqui nas terras tupiniquins não é também nenhum paraíso para os professores e demais trabalhadores da educação. Se quisermos fazer parte dos países do Primeiro Mundo, é preciso adotarmos os seus modelos produtivos, políticos, sociais e, em especial, educacional no que eles têm de melhor e não no que têm de pior. Assim, comparemos os salários dos professores não com aqueles profissionais que também ganham pouco, mas sim com os que têm a mesma formação (ou não) e ganham muito mais.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Príncipe - Maquiavel

“O Príncipe” de Maquiavel passo a passo: adaptação de Maquiavel & O Príncipe de Alessandro Pinzani.

O tema dos primeiros nove capítulos é a aquisição de um principado num território estrangeiro (capítulos III até VII) ou na própria pátria (capítulos VIII e IX): nos capítulos I a IX, Maquiavel fala dos vários tipos de Estados, em particular aos vários tipos de principado, e das dificuldades relativas à conquista de territórios novos e, portanto, ocupa-se brevemente da questão sobre se é melhor contar com a ajuda de outros ou somente com as próprias forças.
Os capítulos X e XI tratam da defesa contra inimigos externos, sendo que este último considera, porém, esta questão de um ponto de vista não muito usual, porque enfrenta o problema se os principados eclesiásticos, que são baseados sobre a religião, precisam de armas para se defender. Dessa maneira, Maquiavel consegue também concluir a investigação acerca dos diversos tipos de principados.
Os capítulos XII até XIV avaliam se é melhor para o príncipe recorrer às milícias mercenárias ou formar uma milícia cívica, e do XV ao XXV ele trata da figura do príncipe e das regras de conduta que deveria seguir. O capítulo XXVI, como já mencionado, consiste numa exortação no sentido de libertar a Itália do domínio das potências estrangeiras, como França, Espanha e Império Alemão.

Os diversos tipos de principado.

O Príncipe inicia com uma série bastante árida de distinções teóricas entre os diversos tipos de Estados ou domínios "que tiveram e têm poder sobre os homens” e que serve para chegar imediatamente ao objeto do seu interesse - deixando de lado todos aqueles tipos de governo que ele não considera eficazes para alcançar o fim prático (a saber, a unificação da Itália).
Uma primeira distinção é aquela entre repúblicas e principados. Maquiavel anuncia que não tratará das repúblicas. Portanto, O Príncipe trata somente dos principados.
Estes podem ser hereditários ou novos. Os hereditários, por si só, não são interessantes por duas razões. Em primeiro lugar, neles "são bem menores as dificuldades para se governar do que nos [principados] novos, pois basta não descuidar da ordem instituída pelos seus antepassados"; portanto, nos principados hereditários, qualquer "príncipe de capacidade mediana" pode manter-se na sua posição, enquanto "é no principado novo que estão as dificuldades".
A outra razão, não indicada explicitamente, é o já mencionado fim político com o qual Maquiavel se decide a escrever O Príncipe: a unificação da Itália só pode acontecer através da criação de um Estado novo.
Este pode ser ou inteiramente novo ou um membro anexo ao estado hereditário do príncipe que o adquire. É isso que interessava a Maquiavel, pois era possível que a Itália fosse unificada a partir de um Estado já existente ou criando uma formação estatal nova. Em ambos os casos, o príncipe deveria enfrentar dificuldades, que variariam conforme os tipos de Estados conquistados e a maneira de conquistá-Ios.
Não contente de ter reduzido o seu objeto aos principados novos, Maquiavel menciona dois outros tipos de Estado, a fim de mostrar a fraqueza deles e eliminá-Ios da sua análise: as tiranias e os principados eclesiásticos (abordados nos capítulos VIII e XI, respectivamente). No caso das tiranias, ele justifica parcialmente a crueldade do tirano: as crueldades "que se fazem de uma só vez pela necessidade de se garantir e depois não se insiste mais em fazer, mas rendem o máximo possível de utilidade para os súditos”.
Maquiavel considerava a utilidade dos súditos como o critério final para julgar as obras dos príncipes. Além disso, ele está longe de pensar que o príncipe deva sempre ser cruel e desumano, pois, a crueldade traz consigo muitos riscos enquanto causa medo e ódio nos súditos - e "os homens ferem ou por medo ou por ódio", como afirma Maquiavel no capítulo VII. Por essa razão, o conquistador deve fazer "todas as ofensas que precisa fazer" de uma só vez, a fim de que, "tomando-se menos o seu gosto, ofendam menos".
Com respeito aos estados eclesiásticos, Maquiavel os considera os únicos "seguros e felizes”, pois a natureza é tal que se torna inútil qualquer ataque ou guerra. Evidentemente, Maquiavel pensa aqui no domínio espiritual do papa ou de outros chefes religiosos. Mas, no seu tempo, a Igreja tinha alcançado também um grande poder temporal. Por isso, nos capítulos XI e XII Maquiavel acusa explicitamente a Igreja de ser uma das causas principais da ruína da Itália. Mais, os papas sempre tentaram reduzir o poder dos outros Estados impedindo assim que um deles conseguisse conquistar e unificar o país.
O interesse principal de Maquiavel não é a questão do surgimento da sociedade civil e do Estado. Mas sim o problema da aquisição do poder em geral e do poder num principado novo em particular. E a atenção para este último problema surge do interesse de Maquiavel pela questão da unificação italiana. O príncipe que unificasse a Itália deveria iniciar o seu feito partindo do zero, ou seja, criando um novo estado através das suas conquistas.

A conquista de novos domínios.

Criar novos domínios apre¬senta dificuldades que mudam de acordo com o tipo de províncias que devem ser conquistadas. Maquiavel inicia a análise dessas dificuldades no capítulo III, no qual recorre a exemplos tirados da Antigüidade (particularmente a romana) e contemporâneos (a política do rei da França Luís XII) para indicar quais são as melhores linhas de ação para quem intenta conquistar novas províncias. Se o território conquistado é da mesma língua e tem os mes¬mos costumes, o príncipe deverá simplesmente "extinguir a dinastia daquele que os dominava”, porque o povo daquela região se acostumará prontamente ao novo senhor. Porém, no caso de se tratar de uma província diferente "por língua, costumes e leis”, as dificuldades são muito maiores.
Os remédios aconselhados por Maquiavel são dois. O primeiro é que o conquistador resida no lugar. Dessa maneira, ele sempre poderá controlar a situação, prever desordens, manter contato direto com os súditos sem deixá-Ios à mercê dos seus funcionários - que poderiam espoliá-Ios. O segundo remédio consiste na fundação de colônias nas regiões conquistadas, conforme o exemplo dos romanos antigos. Em ambos os casos, o príncipe forasteiro deverá se aproveitar do descontentamento daqueles habitantes da província que são menos poderosos e, portanto, invejam "os que são mais poderosos deles". O príncipe forasteiro não terá "dificuldade alguma em atraí-Ios, pois logo todos juntos se unirão ao Estado conquistador. É preciso somente atentar para que não alcancem excessiva força e autoridade .... Quem não governa bem quanto a esse aspecto rapidamente perderá aquilo que tiver conquistado”.
No capítulo IV, Maquiavel inspira-se no exemplo clássico de Alexandre o Grande, cujo império não se desfez com sua morte, como se poderia esperar. A razão, segundo Maquiavel, está no fato de que o império persa e os outros reinos asiáticos conquistados por Alexandre eram governados "por um príncipe de quem eram servidores todos os outros, que, na qualidade de ministros por sua graça ou concessão, o ajudavam a governar aquele reino". Como exemplo contemporâneo, Maquiavel menciona a monarquia turca. Quem quisesse conquistar esse tipo de principado, encontraria grande dificuldade, pois todos os funcionários são muito ligados ao monarca e "dificilmente podem ser corrompidos e, ainda que o fossem, pouco se poderia esperar de útil da parte deles, pois não atrairiam o povo”. Mas, uma vez conquistado o reino e aniquilada a velha dinastia, será muito fácil mantê-Io exatamente porque o povo, não sendo afeiçoado aos seus chefes, não os ajudará nas suas eventuais tentativas de revolta.
De outro lado, há principados que são governados por um príncipe e por barões "que detêm suas posições não pela graça do senhor, mas pela antigüidade do sangue”. Esses barões possuem "súditos próprios que os reconhecem como senhores e nutrem por eles natural afeição”. Um exemplo é a França, onde à senhoria do rei se junta aquela de uma antiga nobreza de sangue. Quem quisesse conquistar aquele reino poderia adquirir facilmente a aliança de algum barão, "pois sempre se encontram descontentes e pessoas com desejo de inovar". Mas, ainda que o príncipe forasteiro não encontre dificuldade em conquistar o reino, ele deve também contar com a resistência dos outros barões e dos súditos a ele afeiçoados, e encontrará, portanto, grande dificuldade em manter a sua conquista.
Nesse capítulo IV se vê, então, como Maquiavel acreditava na existência de um paralelismo entre a Antigüidade e a sua época, e como tinha a convicção de que, em qualquer momento da história, sempre funcionam os mesmos mecanismos e valem as mesmas regras para a ação. Vê-se também como, para Maquiavel, o povo constitui-se somente numa massa passiva privada de vontade própria, um instrumento nas mãos de quem sabe utilizá-Io - nesse caso, o príncipe estrangeiro ou os barões locais.
No capítulo seguinte Maquiavel investiga se é mais fácil conquistar repúblicas ou principados, respondendo que é muito difícil conservar uma cidade habituada a viver em liberdade. Ele elenca três maneiras para alcançar este último fim: destruir a cidade; ir pessoalmente residir nela; ou deixá-Ia viver sob suas próprias leis, limitando-se a impor um tributo e a criar nela uma oligarquia de aliados. Aqui, Maquiavel expõe uma daquelas teses radicais que incentivaram a fama de pensador cínico e sem escrúpulos: "Na verdade, não existe modo seguro de possuir [as repúblicas], exceto a ruína”.
Maquiavel passa então, nos capítulos VI e VIII, a tratar dos principados conquistados respectivamente "com armas próprias e com virtú" ou "com as armas e a fortuna de outrem". No primeiro caso, os conquistadores ou fundadores de reinos souberam aproveitar-se das circunstâncias favoráveis para agir. Ao fazerem isso, encontraram dificuldades, já que foram obrigados a introduzir uma "nova ordem" e "novos métodos" para fundar e manter o Estado. Para Maquiavel isso constitui a coisa "mais difícil de se fazer, mais duvidosa de se alcançar, ou mais perigosa de se manejar”. A razão é que o introdutor de uma nova ordem "tem por inimigos todos aqueles que se beneficiam com a antiga ordem”, enquanto aqueles "a quem as novas instituições beneficiariam" são aliados tímidos, em parte por medo dos adversários, em parte por causa "da incredulidade dos homens, que só crêem na verdade das coisas novas depois de comprovadas por uma firme experiência”. Portanto, os inovadores devem dispor de recursos e armas suficientes para atingir seus objetivos; caso contrário, estão fadados à ruína: ''Todos os profetas armados vencem, enquanto os desarmados se arruínam”.

César Bórgia como príncipe ideal.

No capítulo VII Maquiavel nos oferece o exemplo de um homem virtuoso que encarna todas as qualidades necessárias a um príncipe novo: César Bórgia.
Bórgia está sempre entre aqueles "que somente pela fortuna de cidadãos particulares se tornam príncipes”. Eles chegam a isso "com pouco esforço, mas com muito esforço se mantêm”, pois dependem ou da vontade e da fortuna "de quem lhes concedeu o poder”, ou da sua própria fortuna. Esses príncipes precisam, portanto, reforçar a sua posição criando os fundamentos necessários para a estabilidade do seu poder depois de ter alcançado tal poder, e isso é precisa-mente o que Bórgia tentou fazer.
Maquiavel dedica quase todo esse longo capítulo à descrição das ações de César Bórgia, narrando como ele criou um estado independente na Itália central, desfrutando das alianças de seu pai, o papa Alexandre VI. Contudo, não conseguiu influenciar a eleição de um novo papa favorável a ele, e pouco depois seu reino se desfez, e ele precisou fugir para a Espanha, onde morreu comba¬tendo como mercenário. Maquiavel, porém, absolve-o, culpando a fortuna por sua ruína: "Havia no duque tanta magnanimidade e virtú, tão bem sabia como ganhar e perder os homens e tão sólidos eram os fundamentos que em tão pouco tempo construíra para si que, se ele não tivesse aqueles exércitos [inimigos] em seu encalço ou se estivesse em boa saúde, teria superado todas as dificuldades. ... Recapitulando, portanto, todas as ações do duque, eu não saberia em que censurá-Io”.
As considerações sobre César Bórgia e o uso descarado da crueldade, da violência e do perjuro conduziram Maquiavel a enfrentar, no capítulo VIII, o tema daqueles que "chegaram ao principado por atos criminosos". Maquiavel considera a posição desse tipo de príncipe difícil de manter se não sob a condição de fazer "todas as ofensas" de uma vez, para governar depois com benefícios do povo, conforme fez Agátocles.
O capítulo VIII marca uma virada na argumentação de Maquiavel. Até esse ponto, ele havia tratado principalmente da criação de principados novos através da conquista de territórios estrangeiros. Nesse caso, porém, ele se ocupa de príncipes que chegaram ao poder na sua cidade ou no seu país.
Essa é a perspectiva do capítulo seguinte, no qual Maquiavel trata daquele cidadão particular que "se torna príncipe de sua pátria não por atos criminosos..., mas pelo apoio de seus concidadãos”. Esse tipo de principado ele denomina "principado civil". O príncipe recebe o poder ou dos grandes ou do povo. No primeiro caso o príncipe se deparará com mais dificuldades do que no segundo, pois será cercado de muitos que se consideram seus iguais e não se deixam comandar por ele. Além disso, o povo só quer não ser oprimido pelos grandes. É, portanto, mais fácil satisfazer o povo, enquanto os grandes querem dominar e este se constitui num fim potencialmente ilimitado, o qual nunca poderá ser completamente satisfeito. Se o povo se volta hostil para o príncipe, este não deve temer conseqüências imediatas, pois "o pior que um príncipe pode esperar de um povo hostil é ser abandonado por ele; mas dos grandes, quando inimigos, deve temer ... que o ataquem'”. Por outro lado, é mais fácil defender-se contra os grandes "porque são pou¬cos”, e não muitos como no caso do povo. Deve-se também dizer e saber que "o príncipe tem sempre de viver com o mesmo povo, mas lhe é perfeitamente possível prescindir dos mesmos grandes”.
Portanto, o príncipe deverá sempre manter a amizade do povo ou, caso tenha se tornado príncipe pelo favor dos grandes, deverá trair estes últimos e conquistar o favor do povo, "o que também será fácil" por duas razões: a primeira é que ele, como vimos, só quer proteção; a segunda é esta: "Como os homens se ligam mais ao seu benfeitor se recebem o bem quando esperam o mal, nesse caso, o povo se torna mais rapidamente favorável ao príncipe do que se ele tivesse sido conduzido ao principado graças ao seu apoio”. Segundo Maquiavel, "é necessário ao príncipe ter o povo como amigo; caso contrário, não terá remédio na adversidade”. Contudo, ele não pode confiar demasiadamente nos cidadãos e deverá fazer tudo o que está em seu poder para que os súditos tenham necessidade dele.

As milícias.

No capítulo X, Maquiavel muda completamente de perspectiva e passa a considerar a questão de como se defender das tentativas de conquista por parte de outros príncipes. Maquiavel se concentra no caso de quem não possa enfrentar o inimigo diretamente numa campanha militar. O conselho de Maquiavel é "fortificar bem a sua cidade" e governar bem os súditos, de maneira que eles se tornem fiéis ao príncipe.
Maquiavel tratará, ainda, nos capítulos XII a XIV, do caso do príncipe que pode se permitir criar um exército e, em particular, a questão de qual deveria ser a natureza desse exército: se deve ser formado por soldados mercenários ou por uma milícia cívica.
A conclusão por ele oferecida no capítulo XII é de que as armas mercenárias e auxiliares "são inúteis e perigosas", porque são "desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis, valentes entre amigos e covardes entre inimigos, sem temor a Deus nem probidade para com os homens”. Além disso, os capitães mercenários "ou são homens excelentes ou não o são". Se o forem, não é possível confiar neles, "porque sempre aspirarão a uma grandeza própria”, quer arruinando o seu patrão, quer oprimindo os outros contra a vontade deles. Se não forem valorosos, por isso mesmo arruinarão o seu patrão.
Maquiavel pensa que o príncipe deveria preferir "até perder com suas tropas a vencer com tropas alheias" e chega a formular uma máxima que parece estar em contradição com tudo o que ele escreve em outras passagens a respeito da importância de o príncipe se ocupar em governar bem sobre os seus súditos: "Deve, portanto, um príncipe não ter outro objetivo, nem pensamento, nem tomar como arte sua coisa alguma que não seja a guerra, sua ordem e disciplina, porque esta é a única arte que compete a quem comanda”. Na realidade, o conhecimento desta "arte" constitui um requisito indispensável no mundo de Maquiavel, no qual a política se reduz fundamentalmente à luta para conquistar o poder através da astúcia ou da força e mantê-Io através das armas.

As virtudes do príncipe: moral e política.

A partir do capítulo XIV, e mais especialmente do XV, Maquiavel muda o objeto de sua análise e começa a ocupar-se, agora, da figura do prín¬cipe. Com respeito à figura do príncipe apresentada por Maquiavel nesses capítulos, deve-se sublinhar quatro conceitos fundamentais, a fim de se entender a posição do nosso autor: virtú, ocasião, fortuna e necessidade.
A virtú na qual fala Maquiavel não é a virtude no sentido tradicional clássico ou cristão, isto é, entendida como excelência moral, como qualidade de caráter moralmente positiva. Maquiavel se inspira muito mais no conceito latino de virtus, ou seja, como qualidade que contradistingue o vir, o homem varonil, conforme a definição de vir virtutis (homem virtuoso) ofe-recida por Cícero. Isso não significa que a virtú se deixa identificar simplesmente com a coragem ou a bravura.
Conforme a interpretação de Maquiavel desse conceito clássico, a virtú é uma excelência de caráter que aponta para a consecução de determinados fins políticos e que está baseada em capacidades práticas, das quais parte é congênita, e portanto não suscetível de ser modificada, e parte é aprendida, e por isso passível de ser aperfeiçoada. A virtú não possui nenhuma qualidade moral. Consiste muito mais numa mescla de qualidades diversas e, em parte, opostas, cujo valor só pode ser julgado a respeito de sua aplicabilidade na práxis política: coragem, valentia militar, magnanimidade, resistência, prudência e sobretudo a capacidade de reagir da maneira melhor em cada situação. O homem virtuoso sabe adaptar-se às diferentes ocasiões. Ele não possui o caráter sólido e inflexível do homem do ideal estóico, que prefere se quebrar a se dobrar às circunstâncias. O homem virtuoso é flexível e possui elementos do caráter do leão e da raposa: sabe ser cruel ou astuto conforme as circunstâncias.
No que diz respeito às tradicionais virtudes aristotélicas ou cristãs, o príncipe não precisa possuí-Ias verdadeiramente. Deve, antes, causar a impressão de possuí-Ias (assim como no caso de todas as outras qualidades). Na realidade, Maquiavel, ao libertar o homem virtuoso dos deveres mo¬rais que as tradições clássica e cristã impõem aos indivíduos, não recusa essas tradições, nem defende uma posição de amoralismo absoluto. Ele pretende somente separar decisivamente os âmbitos da moral e da política. Em relação ao primeiro, Maquiavel se revela freqüentemente um moralista rígido, ligado às concepções tradicionais de virtude e de moralidade individual. Se lermos, então, sua antropologia como catálogo de qualidades negativas e não simplesmente como enumeração moralmente neutra das características humanas, e se considerarmos suas obras literárias, viria ao nosso encontro a figura de um Maquiavel que condena os vícios tradicionais e prega o temor a Deus (como na sua Exortação à penitência, um sermão escrito para um domin¬go de Quaresma).
Sobre a política, os critérios para julgar ações e comportamentos nesse âmbito não podem ser os mesmos do âmbito moral. O único critério aceito por Maquiavel é o êxito. Um príncipe pode ser louvado ou vituperado pelas suas qualidades, mas o sucesso em conseguir os seus fins políticos lhe produzirá sempre louvor, sendo-lhe, por conseguinte, mais importante do que qualquer excelência moral. Logo, se o príncipe, para alcançar tais fins, precisa fazer uso da crueldade ou da avareza, então, tanto pior para a moralidade tradicional! Dessa maneira também as qualida¬des morais tornam-se simples instrumentos na luta pelo poder e o sucesso político.
Isso não significa que Maquiavel não possa distinguir ações boas de ações más em seu sentido tradicional. Mas na política não há lugar para julgamentos morais deste tipo. Cada qualidade humana que a tradição considerava uma virtude (humanidade, generosidade etc.) ou como um vício (crueldade, avareza etc.) deve ser julgado exclusivamente com respeito aos seus efeitos na práxis política. Se uma certa qualidade humana serve para a obtenção do fim estabelecido, então ela é boa - em sentido não-moral -; senão é nociva - mas não "má" em sentido moral. Por essa razão, no capítulo XVI, Maquiavel contradiz uma opinião comum a todos os tradicionais manuais para prín¬cipes e afirma que é melhor para o príncipe ser miserável (ou "incorrer na fama de miserável”, como ele escreve, e conforme sua idéia de que as aparências contêm mais do que a realidade) do que ser liberal, pois ser miserável "é um dos vícios que lhe permitem governar”. Pela mesma razão, Maquiavel afirma no capítulo seguinte que é melhor ter a fama de cruel, pois "é muito mais seguro ser temido do que amado”.
Maquiavel passa então a comparar, no capítulo XVIII, o príncipe a um centauro, que compartilha a natureza huma¬na e a animal. Assim, o príncipe deve saber usar qualidades próprias de dois animais: por um lado, a ferocidade e a força do leão; por outro, a astúcia da raposa, a capacidade de simular e dissimular e a habilidade de enganar os outros. Como justificativa Maquiavel aponta o fato de que esse preceito não seria bom se os homens fossem todos bons; porém, sendo eles maus e não cumprindo sua própria palavra, o príncipe não precisa respeitar as promessas feitas aos homens.
Nos capítulos sucessivos Maquiavel insiste na reformulação da imagem tradicional do príncipe, aconselhando-o a não fugir do ódio em geral, mas somente do ódio do povo, pois sem ter o povo ao seu lado sempre se encontrará em grandes dificuldades: "A melhor fortaleza que existe é não ser odiado pelo povo”, e sendo assim o príncipe não deve deixar de entretê-Io "com festas e espetáculos”. O príncipe não deve, além disso, ter receio de tomar posição a favor de um poderoso e contra outro: "Esse partido é sempre melhor do que se manter neutro”, porque, se dois dos seus vizinhos entrarem em guerra, o vencedor poderia considerar a sua neutralidade como sinal de hostilidade e tornar-se inimigo; portanto, "será sempre mais útil declarar-se e fazer jogo limpo". Uma prudência excessiva leva à ruína, porque assim quer a fortuna.
Por fim, no capítulo XXIII, Maquiavel admoesta o príncipe para que não confie nos aduladores e naqueles que oferecem conselhos não pedidos. Um príncipe prudente é o melhor conselheiro de si mesmo e não precisa de outros.
As virtudes mencionadas no Príncipe são consideradas nessa obra apenas em seu caráter político: o príncipe deve tê-Ias, ou parecer tê-Ias, para alcançar o sucesso político, e não para tornar-se um indivíduo moralmente melhor. Nesse senti¬do, o jogo entre virtú e ocasião fica extremamente complexo, já que o homem virtuoso deve adaptar-se à ocasião particu¬lar, embora isto pareça não ser uma garantia suficiente para o êxito de sua ação devido ao papel da fortuna. Maquiavel escreve a respeito de Ciro, Rômulo e demais conquistadores ou fundadores de reinos: "Examinando suas ações e suas vidas, veremos que não receberam da fortuna mais do que a ocasião, que lhes deu a matéria para introduzirem a forma que lhes aprouvesse. E, sem ocasião, a virtú de seu ânimo se teria perdido, assim como, sem a virtú, a ocasião teria seguido em vão”.
Uma conseqüência ulterior é a dificuldade de compa¬rar os homens virtuosos entre si não somente porque eles possuem qualidades diferentes e em medida diferente, mas também porque devem demonstrar a sua virtú em circunstâncias diversas.

O papel da fortuna nas coisas humanas.

O conceito de oca¬sião introduz um elemento de temporalidade no ideal do homem político de Maquiavel: embora possa ter muitas qualidades pessoais, ele deve ser capaz de reagir de maneira justa nas situações difíceis; caso contrário, toda a sua virtude resultará inútil.
Para Maquiavel, há dois tipos de necessidade: o primeiro é a necessidade imposta aos homens por outros homens, como no caso da coação exercida pelo soberano sobre os seus súditos. É nesse tipo de necessidade que Maquiavel pensa ao dizer que os homens são bons somente se necessitados de o ser. O segundo tipo de necessidade é imposta aos homens (a todos eles) pela fortuna. Nessa concepção, Maquiavel revela o seu ataque à tradição clássica e à sua idéia de Fortuna como deusa da fatalidade e dos golpes da sorte. Na Idade Média, sobretudo a partir de Agostinho, essa idéia foi substituída por aquela da providência divina, mas a imagem da Fortuna com a sua roda (com a qual giram as sortes humanas) ficou presente na imaginação popular e também em numerosos tratados de moral. No Renascimento, a fortuna voltou a ser considerada o motor das vicissitudes humanas, porém sem o fatalismo que permeava a concepção clássica. Segundo os humanistas, a fortuna pode ser vencida pela razão e pela virtude dos homens. Maquiavel se coloca entre os dois extremos, o fatalismo clássico e o otimismo humanista. Fortuna pode ser vencida, mas isso é muito difícil, porque pressupõe a capacidade de mudar a própria natureza para adaptar-se às novas circuns¬tâncias criadas pela sorte, e poucos são os indivíduos capa¬zes disso, particularmente quando eles tiveram êxitos, por¬que não poderão admitir a necessidade de mudar sua trilha.
A fortuna em Maquiavel é menos uma força obscura e cega do que uma entidade pessoal, dotada de vontade e de fins próprios: ''A fortuna ¬ sobretudo quando quer enaltecer um príncipe novo, que tem maior necessidade de elevar sua reputação do que um príncipe hereditário - cria-lhe inimigos e movimentos de oposição para que ele tenha oportunidade de superá-Ios e possa, por meio da escada colocada por seus inimigos, subir mais alto”.
Logo, é muito difícil eliminá-Ia. Nem por isso Maquiavel cai no pessimismo. Se a fortuna é uma pessoa dotada de vontade, ela é também "mulher" e pode ser dominada e batida particularmente pelos impetuosos e pelos jovens, "porque são menos tímidos, mais ferozes e a dominam com maior audácia". A parte teórica do livro (o último capítulo é a exortação para libertar a Itália) é concluída, portanto, com um derradeiro convite ao prín¬cipe para ser audaz e feroz, a fim de alcançar êxito.

Rogério Andrade.

terça-feira, 25 de maio de 2010

"Ideologia na cartilha", uma resposta possível.

"Ideologia na cartilha", uma resposta possível.
José Rogério de Pinho Andrade

Em reportagem da revista “Veja” do dia 31/03/2010 intitulada “Ideologia na cartilha” escrita por Marcelo Bertolotti (quem?), ele professa um festival de ideologias e baboseiras contrariando a obrigatoriedade da inclusão das disciplinas de filosofia e sociologia na educação básica brasileira em especial no ensino médio. Como não poderia ser tão diferente do posicionamento editorial da revista, a reportagem do referido jornalista (nem sei se o é de formação, o que parece não ter tanta importância no Brasil) é prá lá de tendenciosa, pois que ele reproduz aquilo que parece criticar ao afirmar que as disciplinas de filosofia e de sociologia possuem características de superficialidade e de panfletarismo. Além do mais, em vários trechos ele toma a parte pelo todo, demonstrando pouco ou nenhum conhecimento daquilo que escreve. Vejamos então do que se trata.

De menor importância, cabe destacar que em algumas situações particulares o currículo elaborado não corresponde àquilo que se espera de uma educação escolar básica de que se pretenda de qualidade. É óbvio que não é tarefa da sociologia preparar os alunos para a elaboração de “regimentos internos para sindicatos de trabalhadores” e, concordamos com ele, isto é um “verdadeiro absurdo”. No entanto, já não nos soa tão absurda a ideia de que o desemprego esteja associado à questão estrutural da sociedade capitalista, mesmo que esta mesma estrutura tenha, historicamente, em outras tantas oportunidades criado também oportunidades de emprego. O mínimo que uma economia pautada no consumo e na produção de excedentes pode produzir é a geração de postos de empregos, pois é por meio do trabalho que a riqueza social é produzida. Mas não se pode esquecer que o avanço da tecnologia como força produtiva tende a diminuir, e até extinguir, outros postos de empregos (trabalho).

É ponto comum de concordância a ideia que “algumas” aulas de filosofia e sociologia não dão “às questões a complexidade que elas merecem.” Mas, ainda bem (ou não!) que isto não é exclusividade dessas disciplinas, pois o que podemos falar das aulas de matemática (“que é bom...”) que são ministradas por este Brasil à fora? A problematização desenvolvida pela física está restrita às suas fórmulas? E o que dizer da biologia e da química? Deverão ser desenvolvidas sem suas complexas problematizações? A literatura então nem pensar, ler Machado de Assis, Camões e Shakespeare na escola deveria ser proibido? Se considerarmos esta argumentação pífia do jornalista, não teríamos nenhuma disciplina (ou melhor, educação escolar) obrigatória, pois todas elas têm a sua complexidade, são obrigatórias e não atendem (pelo menos ainda não) ao propósito de alguma educação que pretenda ser ampliação de visão de mundo.

Às vezes eu me pergunto: quando vão deixar de associar Karl Marx a qualquer ideologia de esquerda? E o que é pior, a algo de caráter ruim, a alguma espécie de câncer ou chaga? Se “hoje” suas ideias parecem anacrônicas, “ontem” elas serviram para que a sociedade capitalista revisse e modificasse parte de suas estruturas. Só para constar, será que em nada as críticas elaboradas por ele sobre a sociedade capitalista contribuíram para o desenvolvimento dos assim chamados direitos sociais?

O jornalista (?) fala da “implosão do comunismo no mundo”, mas esquece de comentar a implosão bem anterior do modelo capitalista. Em suas origens liberais, o capitalismo consolidou-se na ideia do livre mercado e da não-intervenção do poder público (Estado) – em especial – na economia. O que teria sobrado do capitalismo sem a intervenção do Estado (proposta socialista) nas diversas crises econômicas surgidas, principalmente, a partir do século XX até a mais recente do final de 2009? Além do mais, o princípio da Fraternidade tão caro às ideias liberais, em alguma sociedade de economia capitalista deixou de ser ideológico ou tenha se realizado nas ações sociais?

Causa-me surpresa e desconfiança a afirmação atribuída à educadora Tereza Pontual quando reconhece: “Se criássemos diretrizes distantes demais da realidade dos professores, eles simplesmente não as aplicariam na sala de aula – fomos apenas realistas.” A desconfiança está associada à formação acadêmica da mesma: qual é mesmo ela? A surpresa se traduz nos questionamentos que faço: de qual realidade dos professores ela trata, a da qualidade e competência técnica e pedagógica dos mesmos ou das condições precaríssimas de trabalho deles? Que diretrizes seriam essas elaboradas distantes da realidade dos professores? Os professores foram consultados e participaram da elaboração de tais diretrizes demonstrando respeito a eles e ao espírito democrático? Ou será que foram elas elaboradas nos gabinetes e, assim, distantes da realidade dos professores e de todos os envolvidos diretamente no desenvolvimento da educação?

É bem sabido que a formação dos professores no Brasil, em todas as áreas, é horrível e, bem pior são as condições de realização de suas atividades profissionais (inclua-se a remuneração!). Bem tem razão Tânia Zagury em sua obra O professor refém quando demonstra que neste país as decisões que envolvem a educação e o papel dos professores são, na maioria das vezes, tomadas sem a participação destes últimos e muito menos sem dar-lhes as condições para efetivá-las.

Quanto à sua argumentação falaciosa de que a explicação utilizada pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC fora ratificada pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso e que levou ao veto, em 2001, de um projeto de lei com o propósito de tornar obrigatória a inclusão das disciplinas de filosofia e de sociologia no currículo do ensino médio “de que os gastos para os Estados seriam altos demais e que não havia no país professores em número suficiente para atender a nova demanda” é no mínimo ridícula. Algumas razões: o déficit atual de professores nas disciplinas de matemática, física, química e biologia é muito grande e nem por isto elas deixaram de ser componentes curriculares obrigatórios.

É de provocar temor o pensamento do sociólogo Bolivar Lamounier de que não há gente qualificada para desempenhar a função de professor de filosofia e de sociologia no Brasil, pois se condicionarmos à existência de pessoas qualificadas para o desenvolvimento de certas funções, primeiramente teríamos que qualificar as pessoas, para posteriormente criarmos as funções a serem desempenhadas. Quem em sã consciência procuraria uma qualificação profissional na incerteza da possibilidade de realizá-la? Penso eu que esta é uma via de sentido duplo, isto é, na medida em que há a possibilidade de exercer as funções, os profissionais se qualificam e vice-versa.

O que é preciso em termos emergenciais ser feito no Brasil, é oportunizar a qualificação dos profissionais que já atuam no mercado (e não é válido somente para os professores das disciplinas de filosofia e sociologia) e ampliar as possibilidades do mercado que são imensas. Não será restringindo a possibilidade de exercer a profissão que o profissional terá a sua qualificação, pelo contrário, é criando novas e melhores condições para o exercício de sua profissão que o professor irá buscar a sua melhor qualificação.

Mais triste ainda, e lamentável, é o entendimento recheado de acepções ideológicas do diretor de escola particular de São Paulo, Sílvio Barini, que utiliza a “experiência” recente das próprias escolas de que “Está sendo duríssimo achar professores dessas áreas que sejam desprovidos da visão ideológica”! Falo isto porque, parece ele esquecer (ou desconhecer) que o modelo estrutural de educação escolar de nossa sociedade é, em si mesma, ideológica. Não há educação descomprometida com algum ideal de mundo, de homem e de sociedade, pelo menos que seja séria.

Destaque-se o fato de que os professores somente serão bons professores se sua prática traduzir alguma ideologia. Não há ciência e nem saber neutro. O professor é um formador de opinião, caso ele não tenha uma própria não será um bom professor. É bem certo que não é do professor de quaisquer disciplinas a tarefa de impor verdades, muito menos as suas ideologias pessoais, mas é sim sua a tarefa de discutir as diversas ideologias que compõem a trama da existência social, inclusive aquelas que são próprias da escola como instituição social.

Valendo-me dos jargões condenados pelo autor da reportagem, aqueles que podem pagar por uma educação escolar privada preparam seu filhos para ocuparem os postos sociais de mando, já os outros que dependem da escola pública, aprendem a condição de obediência. Esta parecer ser a regra geral para a educação básica: se tem recurso privado, uma melhor escola, caso contrário, uma escola pior. No entanto, a situação se inverte quando o assunto é educação superior: o de melhor qualidade é gratuito, mas ocupado em sua maior parte por quem pode pagar uma educação básica melhor. Neste nível de ensino os gastos com os professores são maiores do que com os da educação básica.

Se é bem verdade que os países “mais avançados em sala de aula” oferecem estas disciplinas apenas como eletivas, então, ao menos assim elas deveriam ser oferecidas na educação brasileira. Em muito os países “mais avançados” se distanciaram de nós em termos de qualidade educacional de modo a proporcionar uma maior possibilidade de escolha que possa contribuir para uma compreensão crítica de seu mundo, de si e de sua sociedade. O mesmo não se dá entre nós, brasileiros e latino americanos, onde a educação básica ainda é considerada privilégio e não direito.

Por fim o autor afirma que “em outros países da América Latina, esse tipo de iniciativa também costuma resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda, preponderante nas escolas (...)”. Ideologia de direita é permitida, de esquerda não? Qual o critério utilizado para determinar se a ideologia de esquerda é melhor ou pior do que a de direita? De que excelência o autor fala quando afirma que o Brasil deve buscá-la? E ainda vem ele me falar de ideologias e “conceitos simplificados e de velhos chavões”!

Poderia o autor se perguntar por que será que no Brasil e nos países da América Latina estas disciplinas tendem a “resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda”? Seria a resposta associada à alguma eventualidade histórica de caráter ditatorial de nossa política? Porque será que os países “mais avançados em sala de aula oferecem estas disciplinas apenas como eletivas”? E, considerando-se a nossa tradição autoritária e atrasada em sala de aula, tais disciplinas quando não são ofertadas de modo obrigatório o são de outro modo, ao menos eletivamente?

Admiro os textos e os posicionamentos do economista Cláudio de Moura, mas espero que as suas palavras tenham sido utilizadas de modo falacioso pelo autor da reportagem em questão quando se vale da autoridade que é o articulista, para mais uma vez tentar justificar a sua posição contrária à obrigatoriedade (e conseguintemente a não inclusão) das disciplinas de filosofia e de sociologia no currículo da educação básica brasileira. Segundo o articulista citado pelo autor, “os países mais desenvolvidos já entenderam há muito tempo que é absolutamente irreal esperar que todos alcancem a complexidade dos temas da sociologia ou da filosofia (grifo nosso) – ainda mais num país em que os alunos acumulam tantas deficiências básicas, com o Brasil.” Ora, pela lógica, o mesmo deveria acontecer com as disciplinas de literatura, com a geometria, com a matemática, etc. Assim sendo, porque tornar tais disciplinas também obrigatórias, aliás, porque falarmos em educação básica obrigatória? De que educação básica estaríamos falando?

Penso eu que é somente oferecendo mais aos alunos da educação básica que poderemos dar “o necessário passo rumo à excelência.” O problema não está na inclusão obrigatória de disciplinas como filosofia e sociologia, ou quaisquer outras que sejam, pois o Brasil deveria fazer como “os países mais avançados em sala de aula” onde os alunos passam mais tempo (e de melhor qualidade) na escola e os professores são melhor remunerados e qualificados. Defendo a ideia de que quanto mais conhecimento, melhor a nossa visão de mundo e, prá isto, mais disciplinas deveriam fazer parte do currículo obrigatório (ou não) da educação básica, tais como, música, teatro, cinema e fotografia, mecânica básica e economia doméstica, artes manuais, etc.

É com mais tempo na escola e com melhor qualidade de conteúdo, com professores mais qualificados e melhor remunerados que poderemos dar “o necessário passo rumo à excelência.”