segunda-feira, 6 de julho de 2009

A relação entre arte e natureza - excertos.

O homem se situa existencialmente no mundo por meio da organização de suas experiências e o transcende. Isto se dá pela razão e pela emoção.
Além da emoção e da razão, o homem se vale do sentimento para dar sentido à sua experiência existencial.
A arte aparece como forma de realização da condição humana, pois intuitivamente se estabelece algum entendimento do mundo substanciado na imaginação e no sentimento, tanto para o artista que elabora a obra de arte, quanto para o expectador que a contempla.

O que é Natureza:

É princípio de vida que cuida dos seres em que se manifesta, isto é, a natureza como essência ou substância necessária. Esta noção de natureza ainda se refere à idéia de conjunto das coisas naturais, como universo ou cosmos.
Como ordem e necessidade. Este conceito carrega a noção de lei natural como a regra de comportamento que a ordem do mundo exige que seja respeitada pelos seres vivos.
É a manifestação do espírito, ou um espírito imperfeito ou diminuído, que se exteriorizou degradando-se de seus verdadeiros caracteres. A natureza seria a acidentalização do ser, é o reflexo da alma na matéria, é a manifestação do espírito e de sua substancialidade.
Como campo objetivo ao qual os vários modos de percepção comum e os vários modos da observação científica se dirigem, isto é, como a esfera dos possíveis objetos de referência das técnicas de observação que a humanidade possui.

O que é Arte: em seu significado mais geral é todo conjunto de regras capazes de dirigir uma atividade humana qualquer:

Platão: entende que a arte compreende todas as atividades humanas ordenadas, incluindo-se aí a filosofia (ciência), e se distinguirá da natureza.
Aristóteles: arte é mais restrita, é entendida como hábito acompanhado pela razão, capacidade de produzir alguma coisa. Separada da ciência, a arte e seu campo passam a abranger as atividades práticas e produtivas.
Estóicos: como um conjunto de compreensões entendidas como assentimento ou como representação compreensiva.
Plotino: reaparece a distinção entre arte e ciência, inexistente no pensamento estóico. Há distinção entre as artes que se voltam para a fabricação de objetos, das artes que se destinam a ajudar a natureza e das práticas que tendem a agir sobre os homens tornando-os melhores ou piores. Artes liberais em contraste com as artes manuais.
Santo Tomás de Aquino: distinguia as artes liberali (correspondentes aos trabalhos da razão) das artes servili (trabalhos exercidos com o corpo).
A palavra arte continuou designando por muito tempo, tanto as artes liberais quanto as artes mecânicas, os ofícios.
Kant: as características tradicionais do conceito de arte receberam a distinção entre arte e natureza de um lado, e arte e ciência de outro; ainda distinguiu, na própria arte, a arte mecânica da arte estética. A arte mecânica dizendo respeito à realização de um objeto possível por meio de operações necessárias. Quando a operação tem como fim imediato o sentimento do prazer, é arte estética. Esta, por sua vez, é arte aprazível (sua finalidade é fazer com que o prazer acompanhe as representações enquanto simples sensações; objetivam somente a fruição) ou bela arte (o seu fim é a conjugação do prazer com as representações como formas de conhecimento, a representação tem um fim em si mesma e, portanto, é fonte de prazer desinteressado).
Atualmente a palavra arte designa qualquer tipo de atividade ordenada, sendo o termo técnica mais apropriado para expressar a idéia de atividade humana. O uso culto empregado ao termo arte tende a privilegiar o significado de bela arte.
Assim, a relação entre arte e natureza aparece sob a forma de relação entre arte e técnica, pois, ao intervir na transformação do mundo atendendo às suas necessidades existenciais, o homem produz objetos que são úteis e objetos que servem para a própria fruição bem como para o seu aprimoramento espiritual, ou seja, objetos belos.

A relação entre arte e técnica:

A primeira e mais antiga relação entre arte e natureza proposta pela filosofia foi a Mímesis. A palavra quer designar que “a arte imita a natureza”, ela é o resultado da atividade do artista em imitar os seres reais (naturais ou sobrenaturais) e suas ações por meio de palavras, hábitos, sentimentos, etc. e o seu valor decorre da habilidade do artista para encontrar materiais e formas adequados para obter o efeito imitativo.
Platão: a imitação apresenta-se como cópia imperfeita do mundo sensível que por sua vez é uma mera cópia das idéias perfeitas e imutáveis. Assim traduz-se como uma atividade inferior, pois não eleva o homem ao racional, pelo contrário, prende-o ao sensível.
Aristóteles: a imitação significa representar a realidade por meio da fantasia e da obediência a regras e preceitos para que a obra figure algum ser, algum sentimento ou emoção, algum fato (acontecido ou inventado). O artista, entretanto, para que sua obra seja de qualidade e atenda às suas finalidades, deve obedecer a preceitos necessários, tais como, harmonia, proporção das formas, dos ritmos, das cores, das palavras ou dos sons. Assim, imitar é o mesmo que simular. A simulação só é artística quando pode ser percebida e sentida como representando algo real. Esta concepção de imitação é entendida também pelo nome de Poética.
Conservada até o surgimento do Romantismo, por volta do final do século XVIII e início do século XIX, a concepção aristotélica de arte como imitação da natureza foi substituída pela compreensão de arte como criação subjetiva, isto é, como Estética. Enquanto tal, o valor é colocado na figura do artista como gênio e imaginação criadora. Em lugar de imitação, fala-se em inspiração.
Como inspiração a obra de arte é exteriorização dos sentimentos do gênio artístico criador e identificação (ou não) de sentimentos por parte de quem a contempla.
A terceira concepção estabelecida entre arte e natureza a entende como trabalho de expressão e construção. Ela não é pura criatividade espiritual, mas é um trabalho que visa a expressão de um sentido novo (a obra) e um processo de construção do objeto artístico em que o artista, colaborando ou lutando contra a natureza, separa-se dela ou volta a ela, vence as resistências ou dobra-se às exigências dela. Por meio da arte, então, constrói-se um mundo novo e o institui como parte da cultura.
José Rogério de Pinho Andrade

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