segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Conhecimento como compreensão do mundo e como fundamentação da ação.

O conhecimento como compreensão do mundo e como fundamentação da ação.
José Rogério de Pinho Andrade

1 - O conhecimento como mecanismo de compreensão e transformação do mundo:

  • Vivemos no mundo e com o mundo;
  • O mundo como um dado cultural;
  • A reflexão e compreensão;
  • Conhecimento como libertação do homem em relação à natureza; Conhecimento como teoria e prática (fazer tecnológico);
  • Conhecimento é social e histórico.
 2 - O conhecimento como uma necessidade para a ação:

  • O conhecimento é uma necessidade;
  • Conhecimento como uma iluminação da realidade;
  • O conhecimento necessário é o conhecimento verdadeiro;
 3 - O conhecimento como elemento de libertação:

  • Como compreensão da realidade, o conhecimento tanto pode libertar como pode oprimir;
  • O conhecimento liberta quando promove a autonomia e independência;
  • Pode ser libertador de indivíduos e de grupos humanos e nações;
  • O conhecimento também pode oprimir.
 Algumas conclusões do autor:

“O conhecimento. em primeiro lugar e antes que tudo, é uma forma teórico-prática de compreensão do mundo.” (p. 59)
"É impossível fazer da universidade um centro de produção de conhecimento, caso não se assuma o significado fundamental do ato de conhecer e seus mecanismos epistemológicos." (p. 59)

Conhecimento filosófico e científico.

1 - O conhecimento do aparente e do oculto.

  • O conhecimento não pode delimitar-se a uma abordagem focalista e reducionista;
  • As situações existem em interrelações com outras;
  • O conhecimento do aparente é aquele que se apresenta reducionista e focalista;
  • O conhecimento o oculto é aquele que vai em busca das relações, tendo seu fundamento na categoria da totalidade;
  • O conhecimento focalista é também conhecido como senso comum, ingênuo; possui as seguintes características: direto e imediato, não revisto e superficial.
  • O conhecimento que busca o oculto é denominado de crítico e tem as seguintes características: metódico, não é reducionista, fundamenta uma ação consciente.
  • Aparência e essência não coincidem.
 2 - O conhecimento filosófico.

  • Tem por finalidade estabelecer uma forma de compreensão e transformação da realidade;
  • "A filosofia é uma concepção geral do mundo da qual decorre uma forma de agir." (p. 66)
  • Por meio da filosofia o homem toma consciência de si, do sentido da sua história, do significado do projeto do futuro;
  • O objeto de reflexão da filosofia são os princípios norteadores de nossas ações;
  • A filosofia é uma reflexão crítica que julga os valores vigentes, propondo outros;
  • A ausência do exercício da filosofia leva à tomarmos o aparente pelo essencial.
 3 - O conhecimento científico.

  • "Tem por objetivo estudar e esclarecer as ocorrências do universo enquanto acontecimentos factuais." (p. 70)
  • Ocupa-se dos fenômenos da natureza, dos objetos ideais e dos fenômenos culturais;
  • Os resultados do conhecimento cientifico tendem a ser descritivos (explicativos, ou implicativos, ou compreensivos) enquanto o da filosofia tende a ser normativo (dever­ ser);
  • "O conhecimento científico pretende esclarecer as ocorrências factuais do universo, produzindo um entendimento de parcelas do 'mundo', descrevendo-as e criando as conexões lógicas e compreensíveis entre os seus componentes." (p. 71)
  • Caminho metodológico da ciência: 
    1. A sensibilidade para perceber os fenômenos e perguntar sobre eles:
    2. Tentar hipóteses de entendimento;
    3. Julgar a validação ou não de nossa suposição;
    4. Busca e obtenção de uma constante de resultados;
    5. Tentar generalizar a nossa interpretação do mundo circundante analisado.
Fonte:
LUCKESI, Cipriano Carlos & outros. Fazer Universidade: uma proposta metodológica. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2005. 

Rogério Andrade

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

São os representantes do povo?


Assembleia rejeita realização de audiência pública para discutir o novo Estatuto do Magistério


A Assembleia Legislativa do Maranhão rejeitou o requerimento nº426/2011, de autoria do deputado Bira do Pindaré (PT), que pleiteava a realização de audiência pública para discutir os impactos do projeto de Lei nº248/2011, que reestrutura o estatuto do magistério do Estado do Maranhão e suas conseqüências para as comunidades docentes e discentes e a população maranhense.

O requerimento foi apresentado à deliberação da mesa diretora da Casa e indeferido pelos votos da 4ª Vice-Presidente, Francisca Primo (PT) e do 3º Secretário, deputado Edilázio Júnior (PV), que votaram contra a realização da audiência.

Bira recorreu ao plenário da ALEMA contra a decisão da mesa diretora e outra vez a realização da audiência não foi aprovada. Apenas os parlamentares do bloco de oposição, composta pelos deputados Bira do Pindaré (PT), Cleide Coutinho (PSB), Eliziane Gama (PPS), Luciano Leitoa (PSB), Marcelo Tavares (PSB), Rubens Pereira Junior (PCdoB), além de outros três da base do governo: os deputados Neto Evangelista (PSDB), Gardênia Castelo (PSDB) e o deputado Zé Carlos (PT) votaram pela aprovação da audiência.

Em aparte ao discurso do deputado Luciano Leitoa (PSB), o petista protestou contra a não aprovação da audiência pública. Ele considerou essa decisão como negligente insensível, pois não contribui na defesa dos interesses dos educadores e do maranhense. 

Fonte: Assecom Dep. Bira

O que é Ideologia

O que é Ideologia.
José Rogério de Pinho Andrade

O conceito de ideologia é essencialmente moderno, pois as explicações da realidade anteriormente eram dadas pelos mitos ou pelo pensamento religioso. Em seu significado é utilizado para indicar uma doutrina “mais ou menos destituída de validade objetiva, porém mantida pelos interesses claros ou ocultos daqueles que a utilizam”. (ABBAGNANO, 2000)
Hoje se entende por ideologia o conjunto dessas crenças, porquanto só têm a validade de expressar certa fase das relações econômicas e, portanto, de servir à defesa dos interesses que prevalecem em cada fase desta relação.
Este termo Ideologia foi criado por Destutt de Tracy, filósofo francês, no final do século XVIII para designar “a análise das sensações e das idéias”. Em seu livro “Elementos de ideologia” (1801) ela foi compreendida como “ciência da gênese das idéias”. Ele procurou elaborar uma explicação para os fenômenos sensíveis que interferem na formação das idéias, isto é, a vontade, a razão, a percepção e a memória. Ele partiu da crença na razão e no poder da ciência em submeter as idéias ao mesmo processo de análise e compreensão dos objetos naturais.
Napoleão Bonaparte entendeu o conceito de ideologia como “idéia falsa” ou “ilusão” considerando-a como a compreensão de um discurso metafísico e distante da realidade. De caráter depreciativo, o termo designava a postura daqueles que se encontravam alheios à realidade, pois carentes de senso político, suas idéias foram consideradas desconexas da realidade em que viviam.
Augusto Comte (1798 – 1857) o compreendia como o estudo da formação das idéias a partir das sensações (relação do homem como o meio), mas acrescentou o sentido de conjunto das idéias de determinada época.
Para Raymond Williams o conceito de ideologia pode ser entendido a partir de três concepções básicas:
a)     Como sistema de crenças de uma classe ou grupo social.
b)    Como sistema de crenças ilusórias – o que se chamava de “falsa consciência”.
c)     Como processo geral de produção de significados e idéias.
Karl Marx não apresentou um único sentido para o termo ideologia. No livro “Ideologia alemã” (1846), ele se referiu ao conceito de ideologia como um sistema elaborado de representações e de idéias que correspondem a formas de consciência que os homens possuem em determinadas épocas e que seriam o resultado de como se organizam as formas de produção. Assim, ele considerou o termo a partir de seus três elementos básicos que caracterizarão sua compreensão da sociedade capitalista, a saber: 
a)     Separação: resultante da divisão da vida humana em duas instâncias específica: a infra-estrutura (esfera da produção material) e a superestrutura (produção das idéias). A primeira se compõe da economia (a produção dos bens necessários à sobrevivência dos homens) e, a segunda, se constitui da moral, do direito, da política e das artes.
b)    Determinação: relação decorrente da separação entre infra-estrutura e superestrutura onde se observa que a primeira determina e condiciona a segunda. No entanto, esta reproduz a primeira.
c)     Inversão: considerada distorção da realidade. A ideologia apresenta aos homens a realidade de modo inversa àquilo que é. O conhecimento científico seria capaz de colocar o mundo como ele é, pois revelaria os mecanismos de separação e determinação da realidade.
Émile Durkheim ao discutir a questão da objetividade científica, afirma que para ser o mais preciso possível, o pesquisador precisa deixar de lado todas as pré-noções e as idéias subjetivas. São essas idéias que ele entende por ideologia. Seria ela assim o contrário de ciência.
Karl Mannheim (1893 – 1947) no livro “Ideologia e Utopia” (1929) identifica duas formas para a ideologia: uma particular e outra total. A particular corresponde à ocultação da realidade que provoca engano. A ideologia total é a visão de mundo (cosmovisão) de uma classe social ou de uma época. Nesse caso não há ocultamento, apenas a reprodução das idéias gerais que permeiam uma sociedade. As ideologias são sempre conservadoras, pois expressam as idéias da classe dominante, e visam à estabilização da ordem. Em contraposição, chama de utopia o que pensam as classes oprimidas, que buscam a transformação. 
O filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Júnior nos fala de ideologia a partir de três características fundamentais, a saber:
a)     “A primeira característica de um conjunto de idéias que se pode chamar de ideologia é a de vir antes que qualquer outra coisa. Ela pertence ao que se quer mostrar e, de preferência, em primeiro plano. Ora, mas há outras duas características da ideologia.”
b) “A segunda característica é a busca de universalidade a qualquer preço. Um conjunto de idéias que é bem particular, que não tem grande força lógica para se tornar universal e, no entanto, busca se tornar universal e quer ser uma verdade independente de todos e uma verdade para todos, já está funcionando como ideologia. É próprio de um conjunto de idéias que se quer transformar em ideologia procurar se colocar de modo abstrato, para ganhar universalidade.”
c)     “A terceira característica da ideologia é que ela quer antes mostrar a verdade “que se tem de seguir” do que um conjunto de enunciados que, possa levar à reflexão a respeito de outros conjuntos de enunciados e assim por diante. Ela, a ideologia, aceita pouco aquilo que Robert Brandom, louvado por Rorty, chamou de “o jogo de dar e pedir razões”. Nesse sentido, é próprio da ideologia o engodo, a ilusão ou o erro.

Em geral, pode-se denominar ideologia toda crença usada para controle dos comportamentos coletivos que pode ter validade objetiva ou não. A crença vira ideologia não por ser válida ou não, mas a ter a sua capacidade de controlar os comportamentos em determinada situação.
A proteção contra a ideologia é o uso da razão. Todavia, temos de nos lembrar que o uso da razão, a racionalização de tudo, pode também ser ideológica.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O que é Cultura

O que é Cultura
José Rogério de Pinho Andrade

O ser humano desde o momento (entenda-se como um processo que implica uma sucessão de momentos interdependentes) em que desenvolveu a sua capacidade de comunicar-se com os demais semelhantes e transmitir suas experiências adquiriu a faculdade de possuir “cultura” dentro das limitações de sua vida associativa.
O termo cultura possui dois significados fundamentais: no primeiro e mais antigo, está associado à formação do homem, sua melhoria, seu refinamento. No segundo, indica o produto dessa formação, isto é, o conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados, civilizados, polidos, que também costumam ser indicados pelo nome de civilização. A passagem do primeiro significado para o segundo se deu por volta do século XVIII por influência do pensamento iluminista.
Quanto ao significado referente à formação da pessoa humana individual, a palavra cultura corresponde ao que os gregos chamavam Paidéia e que os latinos denominavam de humanitas. Referiam-se, portanto à formação integral do homem por meio do desenvolvimento de uma educação á base de aquisição de saberes peculiares ao homem, que o  distinguem dos outros animais. Neste sentido, cultura é a busca de realização que o homem faz de si, de sua essência, de sua verdadeira natureza humana. Estava então associado à uma conexão com a filosofia e com a política. Isto é, a realização humana só poderia ser desenvolvida por meio do conhecimento de si e de seu mundo, mediante a busca da verdade em todos os campos em que ela lhe dissesse respeito. Em segundo lugar, tal realização só seria possível na vida coletiva, na pólis.
A cultura como processo de formação especificamente humana excluía qualquer atividade infra-humana ou ultra-humana. Isto é, excluía em primeiro lugar as atividade consideradas inferiores tais como as artes utilitárias e manuais, visto não distinguirem os homens dos animais; e excluía qualquer atividade que não estivesse voltada para a realização do homem no mundo.
O primeiro aspecto caracteriza a compreensão clássica de cultura como ideal aristocrático e pelo segundo aspecto, ela será caracterizada como naturalista. Contudo, em ambos o ideal cultural é contemplativo, isto é, inteiramente dedicada à busca da sabedoria superior, o fim último da cultura. Tal ideal clássico predominará na Idade Média, no entanto, aqui ele se volta para a preparação do homem religioso, isto é, é uma preparação para a vida dos deveres religiosos e para a vida ultraterrena.
Já no Renascimento, o ideal clássico de cultura será retomado em seu caráter naturalista. Assim, a cultura é concebida como formação que permite ao homem viver da forma mais perfeita e melhor em um mundo que é seu. Modificou-se o caráter contemplativo insistindo no caráter ativo da sabedoria humana. Assim, o trabalho passa a fazer parte desse ideal, sendo, pois resgatado de seu caráter puramente unitário e servil. Contudo, manteve-se o ideal aristocrático, pois ainda vista como sapiência estava restrita a poucos.
No iluminismo teremos a primeira tentativa de eliminação do caráter aristocrático da cultura. Para tanto, dois aspectos foram essenciais; o primeiro procurou estender a crítica racional a todos os objetos possíveis de investigação, considerando como erro e preconceito tudo o que não pudesse passar pelo crivo dessa crítica. Em segundo lugar, propôs a difusão máxima da cultura, que deixou de ser considerada patrimônio dos doutos para ser instrumento de renovação de vida social e individual.
Com o enciclopedismo o conceito de cultura esteve associado à idéia de conhecimento geral e sumário de todos os domínios do saber. No entanto, no começo do século XX este conceito começou a revelar a sua insuficiência diante das urgentes necessidades de saberes especializados, pois o que mais a sociedade espera de seus membros é o desempenho em funções específicas que não depende tanto de uma cultura geral, quanto de uma cultura específica. O mundo moderno exige a especialização como algo imprescindível, que poor sua vez requer encontros e colaborações com outros saberes, que vão muito além da especialização e demandam capacidade de síntese e comparação, que a especialização não oferece.
O problema fundamental da cultura contemporânea está em conciliar as exigências da especialização com a exigência da formação humana, total, ou pelo menos suficientemente equilibrada. Assim, a cultura geral que se apresenta como fundamento cultural é aquela aberta, enquanto possibilidade de alargamento dos horizontes, uma cultura que não se fecha às possibilidades de olhar para o futuro sem se esquecer do passado, possibilitando abstrações operacionais que se entendam no confronto com avaliações globais. Para formação de uma cultura deste tipo se fazem necessárias as presenças dos saberes das disciplinas de enfoque histórico-humanistico, bem como o espírito crítico e experimental da pesquisa científica, assim como é necessário o uso disciplinado e rigoroso das reflexões próprias da filosofia.
No seu segundo significado o termo cultura é utilizado para designar o conjunto dos modos de vida criados, adquiridos e transmitidos de uma geração para a outra, entre os membros de uma determinada comunidade. É a formação anônima e coletiva da sociedade a que ele se refere e não à formação do individuo. Assim, o termo cultura pode servir para indicar o conjunto dos modos de vida de um grupo humano determinado, sem referência ao sistema de valores para os quais estão orientados esses modos de vida. É um termo que pode designar tanto a civilização mais progressista quanto as formas de vida social mais rústicas e primitivas.
Então, pode-se perceber que o termo cultura não está adstrito às ciências sociais mas também serve para designar uma diversidade de outros campos epistemológicos, bem como se referir às ações cotidianas. É portanto um termo com várias definições e vindo do latim colere pode significar tanto o cultivo das plantas, animais e da terra, como o cuidado com as crianças e sua educação. Pode designar também o sentimento e a vivência religiosa que se dá nos culto aos deuses. Refere-se ainda aos cuidados com os ancestrais e seus monumentos e como cultivo da inteligência, das artes e do conhecimento. Como critério de avaliação do estágio de progresso e desenvolvimento de uma civilização; por fim, mas sem esgotar as possibilidades de entendimento do termo, a cultura em relação à história é definida como o conjunto organizado dos vários modos de vida de uma sociedade.
Como conceito antropológico a cultura é vista como “todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. (Tylor)
Para elucidação do termo cultura, pode-se então apresentar os aspectos constitutivos da cultura, a saber, ela constitui o campo simultaneamente do simbólico e material das atividades humanas. Isto é, a cultura constitui-se materialmente de todos os artefatos criados materialmente pelo homem, tais como os instrumentos de caça, de pesca ou de investigação científica, ou de quaisquer outras finalidades, e imaterialmente ou simbolicamente constitui-se de todo o conjunto de sentidos, idéias e significados sociais, isto é, de seus elementos cognoscitivos, de suas crenças, valores e normas, signos e modos não normativos de conduta.
Os elementos cognitivos estão associados ao conjunto de conhecimentos “objetivos” sobre o meio ambiente, sobre as outras pessoas ou atores, sobre as circunstâncias, sobre idéias (ideologias) que são defendidas e assim por diante. São os saberes necessários para o enfrentamento do dia-a-dia que normalmente denominamos de senso-comum.
A partir desses saberes pode-se distinguir um conjunto de crenças, quem em termo empírico não são nem verdadeiras nem falsas. Se nutrem da fé que as pessoas têm sobre o cosmos, sobre a vida, a origem das coisas e de tudo o mais que existe. Se manifestam fundamentalmente por meio da fala encontrada no discurso religioso e mítico que servem para orientação existencial.
Os valores e as normas sociais são as apreciações subjetivas ou objetivas de uma pessoa diante de um fato, ação, influência ou estímulo. A forma como as pessoas reagem ou respondem correspondem a um valor, que tem sido cunhado pela cultura e forma parte dela. São os juízos apreciativos sobre a realidade que se manifestam nos julgamentos aprovativos ou reprovativos de condutas, bem como avaliações de situações ou fatos. Valores e normas estão imbricadamente ligados, pois as normas tendem a ser erigidas a partir de determinadas valorações como forma de expectativa de conduta que o grupo espera de seus membros. Tanto os valores quanto as norma possuem os seguintes critérios: amplitude, duração, intensidade e prestígio.
Os signos culturais são os elementos mais significativos da cultura, pois permitem a transformação do comportamento não-simbólico em comportamento simbolizado. Incluem sinais e símbolos compondo o que se denomina de linguagem.
Os modos não-normativos de conduta são os comportamentos não-obrigatórios ou afetos às normas que existem em todas as culturas. Estas formas de agir são toleradas e não recebem sanções, já que não constituem desvios nem constatações. Identificam-se, de certo modo com as peculiaridades coletivas de uma população ou de um indivíduo que reflete tais peculiaridades, consideradas não-normativas.
A cultura possui um arcabouço que se refere ao conjunto dos elementos que estruturam e organizam a cultura. Esses conteúdos são os traços, complexos, áreas, padrões e configurações culturais. Em algumas referências didáticas encontra-se essa classificação denominada como elementos culturais.
Os traços culturais constituem a unidade mínima identificável de uma cultura. Eles se manifestam por atos e objetos individuais que constituem a característica expressa. Uma canção pode ser exemplo de um traço cultural.
Os traços culturais estão integrados de modo funcional e tal integração compõe o que se denomina de complexo cultural. Assim, os complexos culturais resultam da combinação dos traços culturais em torno de uma atividade básica. Por exemplo, a música popular brasileira está formada por uma diversidade de traços culturais manifestos pelas tendências dos compositores, pelos arranjos, pelo público, pelas empresas patrocinadoras, etc.
Denomina-se de área cultural o espaço pelo qual se distribuem os itens, traços e complexos culturais similares, isto é, é a região onde predominam determinados traços e complexos culturais. Realiza-se em uma perspectiva nacional, em que se destacam as variações sócio-culturais de uma determinada sociedade.
Os padrões culturais são as formas que tomam os complexos culturais. São os contornos adquiridos pelos elementos de uma cultura, a coincidência dos padrões individuais de uma conduta manifestados pelos membros de uma sociedade, que dão ao modo de vida a coerência, continuidade e forma diferenciadora. A forma que tomam os complexos culturais pode externalizar-se de modo institucional e de modo psicológico. Por exemplo, um padrão de cultura cristã é o de que as janelas das igrejas tenham vitrais representando cenas religiosas e, de caráter psicológico, o decoro da conduta no comportamento nas missas onde se fala em voz baixa em sinal de respeito.
A configuração cultural é o padrão integrador, básico ou dominante de uma cultura. Ao redor deste padrão é que se organizam as formas de vida ou de existência de uma sociedade. Geralmente ela integra elementos estruturais com elementos organizatórios da cultura, assim, crenças, símbolos, traços, princípios, padrões, etc tendem a se entrelaçar estabelecendo vínculos entre as configurações culturais e os tipos de personalidade.
Pode-se ainda, destacar sobre os aspectos dinâmicos da cultura os seus atributos básicos. Assim, a cultura é:
a)     social – pois depende de interações sociais;
b)    é para cada sociedade – a cultura existe para cada sociedade e para cada grupo. Implica na existência de subculturas;
c)     é aprendida – obtida pelo treinamento social dos mais jovens;
d)    é transmitida de uma geração para outra – é acumulativa, os membros da nova geração recebem soluções da anterior para muitas de suas necessidades que podem acrescentar soluções novas;
e)     é padronizada e para isto leva-se em conta os itens, traços e complexos que, integrados dão consistência ao padrão e à configuração cultural;
f)     é adaptativa – permite que o indivíduo se ajuste a seu cenário e adquira meios de expressão criadora;
g)    é dinâmica – a mudança é uma constante da cultura humana;
h)     é variável – expressa a qualidade dinâmica e os meios como se produz a mudança cultural, varia de uma sociedade para outra;
i)      é ideacional – é integrada e constituída de idéias;
j)      é compartilhada por todos os membros da sociedade, de tal forma que assume relativa uniformidade;
k)     é penetrante ou envolvente – nenhum indivíduo escapa às influências culturais de sua sociedade.
Outro aspecto importante a ser destacado no assunto relacionado ao tema da cultura, diz respeito à divisão entre cultura popular e erudita. Esta separação, com a atribuição de maior valor á segunda, está associada á separação da sociedade em classes, onde a cultura erudita seria identificada com a camada dominante, a elite social, enquanto a cultura popular identificaria os traços dos segmentos populares.
Seria a primeira considerada de maior valor, devido ao seu refinamento técnico. Associam-se a ela a música clássica de padrão europeu, as artes plásticas, o teatro e a literatura de cunho universal. Em relação à cultura popular as expressões são os mitos, danças e músicas regionais, artesanato, etc. não se restringe ao meio rural, mas também está presente no meio urbano como o hip-hop, o funk, e outros sincretismos entre as duas realidades sociais, o campo e a cidade.
Na medida em que a sociedade industrial se desenvolve e suas relações se tornam mais complexas e são acompanhadas pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e pela urgência do consumo, a distinção entre cultura popular e erudita tende a desaparecer e em seu lugar surge o conceito de cultura de massa. Este conceito está associado ao entendimento de uma cultura que tende a ser produzida de modo indistinto socialmente, isto é, atendendo às demandas de comunicação da sociedade de massa e de consumo. Seria a cultura produzida para ser consumida por qualquer segmento social, deste modo, diminuindo a distinção entre cultura erudita e cultura popular, sendo absorvida por qualquer segmento social. Com o intuito de atender ás exigências da indústria cultural, torna-se um instrumento da ideologia, pois mostra uma realidade homogênea quando não o é.
Assim, a cultura de massa estaria associada à compreensão do que se entende por Indústria Cultural. Podemos nos referir à indústria cultural a partir do Século XVIII. O termo faz com que vejamos a sociedade como uma sociedade de massas, de multidões padronizadas e homogêneas e nos remete às idéias de produção em série, de comercialização e lucratividade. O termo foi criado por Theodor Adorno (1903 – 1969) e Max Horkheimer (1895 – 1975).
Nas sociedades de massa, seriam os comportamentos dos indivíduos compreendidos como de massa. Ou seja, comportamento de massa é o que se espera dos indivíduos na sociedade industrial e que tem como principal instrumento de controle os meios de comunicação de massa (mass media).
Três outros conceitos precisam ser apontados para a compreensão do tema cultura, a saber, o conceito de aculturação, o de alienação cultural o de contracultura.
A aculturação é o processo de modificação e perda de traços de uma cultura como conseqüência do contato estabelecido com outra. Seria a absorção de traços culturais de uma sociedade pelos traços sociais de outra. Deu-se no Brasil quando do processo de colonização dos índios brasileiros com a extinção de seus traços culturais mais significativos.
O segundo conceito é o de alienação cultural e está associado ao processo de marginalização dos indivíduos quando não conseguem integrar-se completamente em uma cultura.
O último conceito associado ao tema é o de “contracultura”. A contracultura constitui-se em uma anticultura. Esta trata de criar uma série de valores inversos e contrários àqueles da sociedade dominante, em face de frustrações ou de situações de conflito. Há uma rejeição dos elementos fundamentais da estrutura dominante vigente. Entende-se ainda a contracultura como os movimentos de contestação, nas sociedades contemporâneas, dos valores culturais da sociedade industrial opondo-se radicalmente a eles. Os melhores exemplos foram o Movimento Hippie da década de 1960 e depois o Movimento Punk na década de 1970.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Teoria do Conhecimento – Epistemologia.

Também chamada de teoria do conhecimento, a epistemologia é o ramo da filosofia que se ocupa da investigação sobre a natureza, as origens e a validade do conhecimento. Busca respostas às questões: o que é o conhecimento? Qual o fundamento do conhecimento? É possível o conhecimento verdadeiro? Na história da filosofia tais questões, implícita ou explicitamente, sempre estiveram presentes. Contudo, foi na modernidade, a partir do século XVII em diante que a epistemologia passou a ocupar o centro da cena filosófica.

Noção de conhecimento

O ser humano é dotado da capacidade de conhecer e de pensar. Conhecer e pensar constituem, não somente uma capacidade, como também uma necessidade para o homem. Enquanto os organismos vivos se adaptam à realidade, o homem convive com ela e tem a capacidade de conhecê-la.
Afinal, o que é conhecer? O conhecimento é o pensamento que resulta da relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido. Pode se designar o ato de conhecer enquanto relação que se estabelece entre a consciência que conhece e o mundo conhecido. Também se refere ao produto, ao resultado do conteúdo desse ato, ou seja, o saber adquirido e acumulado pelo homem.
Qualquer conhecimento é uma espécie de apropriação do mundo objetivo e subjetivo por parte do sujeito cognoscente. Pressupõe, portanto, dois elementos: um sujeito que conhece e um objeto que é conhecido. Pode ser representado pela fórmula: Sujeito x Objeto (S x O).
De que modo o sujeito que conhece pode apreender o real? A resposta mais comum que nos vem à mente é que o homem conhece pela razão. Mas, também, nós apreendemos o real pela intuição, que é uma forma de conhecimento imediato. A intuição, do latim intuitio – ato de contemplar, é uma visão súbita, é uma forma de contato direto ou imediato da mente com o real, capaz de captar sua essência de modo evidente, mas não necessitando de demonstração e pode ser de vários tipos:
a)     Intuição sensível – é o conhecimento imediato que nos é dado pelos órgãos dos sentidos;
b)    Intuição inventiva – diz respeito às soluções criativas;
c)     Intuição intelectual – é a que se esforça por captar diretamente a essência do objeto.
Para compreender o mundo, para “organizar o caos”, a razão supera as informações concretas e imediatas que recebe, organizando-as em conceitos ou idéias gerais. Diferentemente da intuição, a razão é por excelência a faculdade de julgar.
Chamamos conhecimento discursivo ao conhecimento mediato, isto é, aquele que se dá por meio de conceitos. É o pensamento que opera por um encadeamento de idéias, juízos e raciocínios que levam a uma determinada conclusão.
A razão, em seu esforço de conhecer, precisa realizar abstrações. Abstrair significa “isolar”, “separar de”. Resulta daí o conceito ou idéia que é a representação intelectual de um objeto.

O problema da verdade

O problema do conhecimento implica no problema da verdade, visto que aquele se apresenta como uma apreensão da realidade e, deste modo, quem o possui, pretende ser portador da verdade que ele (o conhecimento) representa. A busca do conhecimento é impulsionada pelo desejo de um valor: a verdade.
A busca da verdade apresenta-se como um valor, pois, “o verdadeiro confere às coisas, aos seres humanos, ao mundo um sentido que não teriam se fossem considerados indiferentes à verdade e à falsidade”. (Marilena Chauí, p.88)
A verdade é a tentativa de superação da incerteza, que por sua vez nos leva à descoberta de que somos ignorantes. Isto é, a ignorância se mantém em nós enquanto as nossas crenças e opiniões são suficientes, eficazes e úteis para a nossa vida. Conseqüentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber. A incerteza, como um abalo de nossas crenças e opiniões, nos leva à descoberta de elas parecem não ser suficientes para dar conta da realidade. Parece haver falhas, duvidamos e somos tomados pela insegurança. Outras vezes nos admiramos e nos espantamos com o novo. A novidade nos apresenta a insegurança do desconhecido, do novo, que surge em nós como admiração, e nos faz querer saber o que antes não sabíamos.
A atitude de busca da verdade consiste exatamente nisto, a saber, querer sair do estado de insegurança ou de encantamento despertando o desejo de superação da incerteza.
O desejo da verdade aparece muito cedo, é o desejo de confiar nas coisas e nas pessoas. Deste modo, conhecer é acreditar que as coisas e as pessoas são exatamente tais como a percebemos (pelos sentidos ou pela razão). No entanto, também nos decepcionamos muito cedo com nossas crenças e opiniões.
Assim, a busca da verdade também está ligada a uma decepção, a uma desilusão, a uma dúvida, a uma perplexidade, a uma insegurança ou, então, a um espanto e uma admiração diante de algo novo ou insólito. Esta busca, por outro lado, não é fácil, ela é dificultada por diversos mecanismos: pessoais, sociais, políticos, econômicos e de diversas ordens ou natureza.
A mídia como um dos principais empecilhos à busca da verdade, nos leva a acreditar que estamos recebendo as informações, filosóficas, científicas, políticas, religiosas e artísticas como sendo verdadeiras, pois, tais informações ultrapassam a experiência das pessoas que, por seu lado, não têm como avaliá-las. Atrelada à mídia, temos a propaganda como outro fator de dificuldade para a busca da verdade, visto que ela trata todas as pessoas como ingenuamente crédulas, pois, ela nunca vende um produto dizendo o que de fato ele é e para que serve, vende sempre uma imagem onírica ou paradisíaca de um mundo mágico, perfeito.
Outra dificuldade e de extrema importância, é a atitude dos políticos nos quais as pessoas acreditam, depositam suas esperanças e credibilidade para, em seguida, se verem ludibriadas e frustradas, não apenas porque as promessas não são cumpridas, mas também pelo fato de estarem envolvidos na corrupção e no desmando com a coisa pública.
Contudo, estas e outras dificuldades podem funcionar de um modo oposto, isto é, podem despertar o desejo de busca da verdade enquanto condição de conhecimento da realidade, da sociedade, da ciência, das artes e da política.
Podemos distinguir dois tipos de busca da verdade: o que nasce da decepção, da incerteza e da insegurança e o que nasce da deliberação, da decisão de não aceitar as certezas e crenças estabelecidas.

José Rogério de Pinho Andrade