terça-feira, 18 de outubro de 2011

O que é Cultura

O que é Cultura
José Rogério de Pinho Andrade

O ser humano desde o momento (entenda-se como um processo que implica uma sucessão de momentos interdependentes) em que desenvolveu a sua capacidade de comunicar-se com os demais semelhantes e transmitir suas experiências adquiriu a faculdade de possuir “cultura” dentro das limitações de sua vida associativa.
O termo cultura possui dois significados fundamentais: no primeiro e mais antigo, está associado à formação do homem, sua melhoria, seu refinamento. No segundo, indica o produto dessa formação, isto é, o conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados, civilizados, polidos, que também costumam ser indicados pelo nome de civilização. A passagem do primeiro significado para o segundo se deu por volta do século XVIII por influência do pensamento iluminista.
Quanto ao significado referente à formação da pessoa humana individual, a palavra cultura corresponde ao que os gregos chamavam Paidéia e que os latinos denominavam de humanitas. Referiam-se, portanto à formação integral do homem por meio do desenvolvimento de uma educação á base de aquisição de saberes peculiares ao homem, que o  distinguem dos outros animais. Neste sentido, cultura é a busca de realização que o homem faz de si, de sua essência, de sua verdadeira natureza humana. Estava então associado à uma conexão com a filosofia e com a política. Isto é, a realização humana só poderia ser desenvolvida por meio do conhecimento de si e de seu mundo, mediante a busca da verdade em todos os campos em que ela lhe dissesse respeito. Em segundo lugar, tal realização só seria possível na vida coletiva, na pólis.
A cultura como processo de formação especificamente humana excluía qualquer atividade infra-humana ou ultra-humana. Isto é, excluía em primeiro lugar as atividade consideradas inferiores tais como as artes utilitárias e manuais, visto não distinguirem os homens dos animais; e excluía qualquer atividade que não estivesse voltada para a realização do homem no mundo.
O primeiro aspecto caracteriza a compreensão clássica de cultura como ideal aristocrático e pelo segundo aspecto, ela será caracterizada como naturalista. Contudo, em ambos o ideal cultural é contemplativo, isto é, inteiramente dedicada à busca da sabedoria superior, o fim último da cultura. Tal ideal clássico predominará na Idade Média, no entanto, aqui ele se volta para a preparação do homem religioso, isto é, é uma preparação para a vida dos deveres religiosos e para a vida ultraterrena.
Já no Renascimento, o ideal clássico de cultura será retomado em seu caráter naturalista. Assim, a cultura é concebida como formação que permite ao homem viver da forma mais perfeita e melhor em um mundo que é seu. Modificou-se o caráter contemplativo insistindo no caráter ativo da sabedoria humana. Assim, o trabalho passa a fazer parte desse ideal, sendo, pois resgatado de seu caráter puramente unitário e servil. Contudo, manteve-se o ideal aristocrático, pois ainda vista como sapiência estava restrita a poucos.
No iluminismo teremos a primeira tentativa de eliminação do caráter aristocrático da cultura. Para tanto, dois aspectos foram essenciais; o primeiro procurou estender a crítica racional a todos os objetos possíveis de investigação, considerando como erro e preconceito tudo o que não pudesse passar pelo crivo dessa crítica. Em segundo lugar, propôs a difusão máxima da cultura, que deixou de ser considerada patrimônio dos doutos para ser instrumento de renovação de vida social e individual.
Com o enciclopedismo o conceito de cultura esteve associado à idéia de conhecimento geral e sumário de todos os domínios do saber. No entanto, no começo do século XX este conceito começou a revelar a sua insuficiência diante das urgentes necessidades de saberes especializados, pois o que mais a sociedade espera de seus membros é o desempenho em funções específicas que não depende tanto de uma cultura geral, quanto de uma cultura específica. O mundo moderno exige a especialização como algo imprescindível, que poor sua vez requer encontros e colaborações com outros saberes, que vão muito além da especialização e demandam capacidade de síntese e comparação, que a especialização não oferece.
O problema fundamental da cultura contemporânea está em conciliar as exigências da especialização com a exigência da formação humana, total, ou pelo menos suficientemente equilibrada. Assim, a cultura geral que se apresenta como fundamento cultural é aquela aberta, enquanto possibilidade de alargamento dos horizontes, uma cultura que não se fecha às possibilidades de olhar para o futuro sem se esquecer do passado, possibilitando abstrações operacionais que se entendam no confronto com avaliações globais. Para formação de uma cultura deste tipo se fazem necessárias as presenças dos saberes das disciplinas de enfoque histórico-humanistico, bem como o espírito crítico e experimental da pesquisa científica, assim como é necessário o uso disciplinado e rigoroso das reflexões próprias da filosofia.
No seu segundo significado o termo cultura é utilizado para designar o conjunto dos modos de vida criados, adquiridos e transmitidos de uma geração para a outra, entre os membros de uma determinada comunidade. É a formação anônima e coletiva da sociedade a que ele se refere e não à formação do individuo. Assim, o termo cultura pode servir para indicar o conjunto dos modos de vida de um grupo humano determinado, sem referência ao sistema de valores para os quais estão orientados esses modos de vida. É um termo que pode designar tanto a civilização mais progressista quanto as formas de vida social mais rústicas e primitivas.
Então, pode-se perceber que o termo cultura não está adstrito às ciências sociais mas também serve para designar uma diversidade de outros campos epistemológicos, bem como se referir às ações cotidianas. É portanto um termo com várias definições e vindo do latim colere pode significar tanto o cultivo das plantas, animais e da terra, como o cuidado com as crianças e sua educação. Pode designar também o sentimento e a vivência religiosa que se dá nos culto aos deuses. Refere-se ainda aos cuidados com os ancestrais e seus monumentos e como cultivo da inteligência, das artes e do conhecimento. Como critério de avaliação do estágio de progresso e desenvolvimento de uma civilização; por fim, mas sem esgotar as possibilidades de entendimento do termo, a cultura em relação à história é definida como o conjunto organizado dos vários modos de vida de uma sociedade.
Como conceito antropológico a cultura é vista como “todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. (Tylor)
Para elucidação do termo cultura, pode-se então apresentar os aspectos constitutivos da cultura, a saber, ela constitui o campo simultaneamente do simbólico e material das atividades humanas. Isto é, a cultura constitui-se materialmente de todos os artefatos criados materialmente pelo homem, tais como os instrumentos de caça, de pesca ou de investigação científica, ou de quaisquer outras finalidades, e imaterialmente ou simbolicamente constitui-se de todo o conjunto de sentidos, idéias e significados sociais, isto é, de seus elementos cognoscitivos, de suas crenças, valores e normas, signos e modos não normativos de conduta.
Os elementos cognitivos estão associados ao conjunto de conhecimentos “objetivos” sobre o meio ambiente, sobre as outras pessoas ou atores, sobre as circunstâncias, sobre idéias (ideologias) que são defendidas e assim por diante. São os saberes necessários para o enfrentamento do dia-a-dia que normalmente denominamos de senso-comum.
A partir desses saberes pode-se distinguir um conjunto de crenças, quem em termo empírico não são nem verdadeiras nem falsas. Se nutrem da fé que as pessoas têm sobre o cosmos, sobre a vida, a origem das coisas e de tudo o mais que existe. Se manifestam fundamentalmente por meio da fala encontrada no discurso religioso e mítico que servem para orientação existencial.
Os valores e as normas sociais são as apreciações subjetivas ou objetivas de uma pessoa diante de um fato, ação, influência ou estímulo. A forma como as pessoas reagem ou respondem correspondem a um valor, que tem sido cunhado pela cultura e forma parte dela. São os juízos apreciativos sobre a realidade que se manifestam nos julgamentos aprovativos ou reprovativos de condutas, bem como avaliações de situações ou fatos. Valores e normas estão imbricadamente ligados, pois as normas tendem a ser erigidas a partir de determinadas valorações como forma de expectativa de conduta que o grupo espera de seus membros. Tanto os valores quanto as norma possuem os seguintes critérios: amplitude, duração, intensidade e prestígio.
Os signos culturais são os elementos mais significativos da cultura, pois permitem a transformação do comportamento não-simbólico em comportamento simbolizado. Incluem sinais e símbolos compondo o que se denomina de linguagem.
Os modos não-normativos de conduta são os comportamentos não-obrigatórios ou afetos às normas que existem em todas as culturas. Estas formas de agir são toleradas e não recebem sanções, já que não constituem desvios nem constatações. Identificam-se, de certo modo com as peculiaridades coletivas de uma população ou de um indivíduo que reflete tais peculiaridades, consideradas não-normativas.
A cultura possui um arcabouço que se refere ao conjunto dos elementos que estruturam e organizam a cultura. Esses conteúdos são os traços, complexos, áreas, padrões e configurações culturais. Em algumas referências didáticas encontra-se essa classificação denominada como elementos culturais.
Os traços culturais constituem a unidade mínima identificável de uma cultura. Eles se manifestam por atos e objetos individuais que constituem a característica expressa. Uma canção pode ser exemplo de um traço cultural.
Os traços culturais estão integrados de modo funcional e tal integração compõe o que se denomina de complexo cultural. Assim, os complexos culturais resultam da combinação dos traços culturais em torno de uma atividade básica. Por exemplo, a música popular brasileira está formada por uma diversidade de traços culturais manifestos pelas tendências dos compositores, pelos arranjos, pelo público, pelas empresas patrocinadoras, etc.
Denomina-se de área cultural o espaço pelo qual se distribuem os itens, traços e complexos culturais similares, isto é, é a região onde predominam determinados traços e complexos culturais. Realiza-se em uma perspectiva nacional, em que se destacam as variações sócio-culturais de uma determinada sociedade.
Os padrões culturais são as formas que tomam os complexos culturais. São os contornos adquiridos pelos elementos de uma cultura, a coincidência dos padrões individuais de uma conduta manifestados pelos membros de uma sociedade, que dão ao modo de vida a coerência, continuidade e forma diferenciadora. A forma que tomam os complexos culturais pode externalizar-se de modo institucional e de modo psicológico. Por exemplo, um padrão de cultura cristã é o de que as janelas das igrejas tenham vitrais representando cenas religiosas e, de caráter psicológico, o decoro da conduta no comportamento nas missas onde se fala em voz baixa em sinal de respeito.
A configuração cultural é o padrão integrador, básico ou dominante de uma cultura. Ao redor deste padrão é que se organizam as formas de vida ou de existência de uma sociedade. Geralmente ela integra elementos estruturais com elementos organizatórios da cultura, assim, crenças, símbolos, traços, princípios, padrões, etc tendem a se entrelaçar estabelecendo vínculos entre as configurações culturais e os tipos de personalidade.
Pode-se ainda, destacar sobre os aspectos dinâmicos da cultura os seus atributos básicos. Assim, a cultura é:
a)     social – pois depende de interações sociais;
b)    é para cada sociedade – a cultura existe para cada sociedade e para cada grupo. Implica na existência de subculturas;
c)     é aprendida – obtida pelo treinamento social dos mais jovens;
d)    é transmitida de uma geração para outra – é acumulativa, os membros da nova geração recebem soluções da anterior para muitas de suas necessidades que podem acrescentar soluções novas;
e)     é padronizada e para isto leva-se em conta os itens, traços e complexos que, integrados dão consistência ao padrão e à configuração cultural;
f)     é adaptativa – permite que o indivíduo se ajuste a seu cenário e adquira meios de expressão criadora;
g)    é dinâmica – a mudança é uma constante da cultura humana;
h)     é variável – expressa a qualidade dinâmica e os meios como se produz a mudança cultural, varia de uma sociedade para outra;
i)      é ideacional – é integrada e constituída de idéias;
j)      é compartilhada por todos os membros da sociedade, de tal forma que assume relativa uniformidade;
k)     é penetrante ou envolvente – nenhum indivíduo escapa às influências culturais de sua sociedade.
Outro aspecto importante a ser destacado no assunto relacionado ao tema da cultura, diz respeito à divisão entre cultura popular e erudita. Esta separação, com a atribuição de maior valor á segunda, está associada á separação da sociedade em classes, onde a cultura erudita seria identificada com a camada dominante, a elite social, enquanto a cultura popular identificaria os traços dos segmentos populares.
Seria a primeira considerada de maior valor, devido ao seu refinamento técnico. Associam-se a ela a música clássica de padrão europeu, as artes plásticas, o teatro e a literatura de cunho universal. Em relação à cultura popular as expressões são os mitos, danças e músicas regionais, artesanato, etc. não se restringe ao meio rural, mas também está presente no meio urbano como o hip-hop, o funk, e outros sincretismos entre as duas realidades sociais, o campo e a cidade.
Na medida em que a sociedade industrial se desenvolve e suas relações se tornam mais complexas e são acompanhadas pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e pela urgência do consumo, a distinção entre cultura popular e erudita tende a desaparecer e em seu lugar surge o conceito de cultura de massa. Este conceito está associado ao entendimento de uma cultura que tende a ser produzida de modo indistinto socialmente, isto é, atendendo às demandas de comunicação da sociedade de massa e de consumo. Seria a cultura produzida para ser consumida por qualquer segmento social, deste modo, diminuindo a distinção entre cultura erudita e cultura popular, sendo absorvida por qualquer segmento social. Com o intuito de atender ás exigências da indústria cultural, torna-se um instrumento da ideologia, pois mostra uma realidade homogênea quando não o é.
Assim, a cultura de massa estaria associada à compreensão do que se entende por Indústria Cultural. Podemos nos referir à indústria cultural a partir do Século XVIII. O termo faz com que vejamos a sociedade como uma sociedade de massas, de multidões padronizadas e homogêneas e nos remete às idéias de produção em série, de comercialização e lucratividade. O termo foi criado por Theodor Adorno (1903 – 1969) e Max Horkheimer (1895 – 1975).
Nas sociedades de massa, seriam os comportamentos dos indivíduos compreendidos como de massa. Ou seja, comportamento de massa é o que se espera dos indivíduos na sociedade industrial e que tem como principal instrumento de controle os meios de comunicação de massa (mass media).
Três outros conceitos precisam ser apontados para a compreensão do tema cultura, a saber, o conceito de aculturação, o de alienação cultural o de contracultura.
A aculturação é o processo de modificação e perda de traços de uma cultura como conseqüência do contato estabelecido com outra. Seria a absorção de traços culturais de uma sociedade pelos traços sociais de outra. Deu-se no Brasil quando do processo de colonização dos índios brasileiros com a extinção de seus traços culturais mais significativos.
O segundo conceito é o de alienação cultural e está associado ao processo de marginalização dos indivíduos quando não conseguem integrar-se completamente em uma cultura.
O último conceito associado ao tema é o de “contracultura”. A contracultura constitui-se em uma anticultura. Esta trata de criar uma série de valores inversos e contrários àqueles da sociedade dominante, em face de frustrações ou de situações de conflito. Há uma rejeição dos elementos fundamentais da estrutura dominante vigente. Entende-se ainda a contracultura como os movimentos de contestação, nas sociedades contemporâneas, dos valores culturais da sociedade industrial opondo-se radicalmente a eles. Os melhores exemplos foram o Movimento Hippie da década de 1960 e depois o Movimento Punk na década de 1970.

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