quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Teoria do Conhecimento – Epistemologia.

Também chamada de teoria do conhecimento, a epistemologia é o ramo da filosofia que se ocupa da investigação sobre a natureza, as origens e a validade do conhecimento. Busca respostas às questões: o que é o conhecimento? Qual o fundamento do conhecimento? É possível o conhecimento verdadeiro? Na história da filosofia tais questões, implícita ou explicitamente, sempre estiveram presentes. Contudo, foi na modernidade, a partir do século XVII em diante que a epistemologia passou a ocupar o centro da cena filosófica.

Noção de conhecimento

O ser humano é dotado da capacidade de conhecer e de pensar. Conhecer e pensar constituem, não somente uma capacidade, como também uma necessidade para o homem. Enquanto os organismos vivos se adaptam à realidade, o homem convive com ela e tem a capacidade de conhecê-la.
Afinal, o que é conhecer? O conhecimento é o pensamento que resulta da relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido. Pode se designar o ato de conhecer enquanto relação que se estabelece entre a consciência que conhece e o mundo conhecido. Também se refere ao produto, ao resultado do conteúdo desse ato, ou seja, o saber adquirido e acumulado pelo homem.
Qualquer conhecimento é uma espécie de apropriação do mundo objetivo e subjetivo por parte do sujeito cognoscente. Pressupõe, portanto, dois elementos: um sujeito que conhece e um objeto que é conhecido. Pode ser representado pela fórmula: Sujeito x Objeto (S x O).
De que modo o sujeito que conhece pode apreender o real? A resposta mais comum que nos vem à mente é que o homem conhece pela razão. Mas, também, nós apreendemos o real pela intuição, que é uma forma de conhecimento imediato. A intuição, do latim intuitio – ato de contemplar, é uma visão súbita, é uma forma de contato direto ou imediato da mente com o real, capaz de captar sua essência de modo evidente, mas não necessitando de demonstração e pode ser de vários tipos:
a)     Intuição sensível – é o conhecimento imediato que nos é dado pelos órgãos dos sentidos;
b)    Intuição inventiva – diz respeito às soluções criativas;
c)     Intuição intelectual – é a que se esforça por captar diretamente a essência do objeto.
Para compreender o mundo, para “organizar o caos”, a razão supera as informações concretas e imediatas que recebe, organizando-as em conceitos ou idéias gerais. Diferentemente da intuição, a razão é por excelência a faculdade de julgar.
Chamamos conhecimento discursivo ao conhecimento mediato, isto é, aquele que se dá por meio de conceitos. É o pensamento que opera por um encadeamento de idéias, juízos e raciocínios que levam a uma determinada conclusão.
A razão, em seu esforço de conhecer, precisa realizar abstrações. Abstrair significa “isolar”, “separar de”. Resulta daí o conceito ou idéia que é a representação intelectual de um objeto.

O problema da verdade

O problema do conhecimento implica no problema da verdade, visto que aquele se apresenta como uma apreensão da realidade e, deste modo, quem o possui, pretende ser portador da verdade que ele (o conhecimento) representa. A busca do conhecimento é impulsionada pelo desejo de um valor: a verdade.
A busca da verdade apresenta-se como um valor, pois, “o verdadeiro confere às coisas, aos seres humanos, ao mundo um sentido que não teriam se fossem considerados indiferentes à verdade e à falsidade”. (Marilena Chauí, p.88)
A verdade é a tentativa de superação da incerteza, que por sua vez nos leva à descoberta de que somos ignorantes. Isto é, a ignorância se mantém em nós enquanto as nossas crenças e opiniões são suficientes, eficazes e úteis para a nossa vida. Conseqüentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber. A incerteza, como um abalo de nossas crenças e opiniões, nos leva à descoberta de elas parecem não ser suficientes para dar conta da realidade. Parece haver falhas, duvidamos e somos tomados pela insegurança. Outras vezes nos admiramos e nos espantamos com o novo. A novidade nos apresenta a insegurança do desconhecido, do novo, que surge em nós como admiração, e nos faz querer saber o que antes não sabíamos.
A atitude de busca da verdade consiste exatamente nisto, a saber, querer sair do estado de insegurança ou de encantamento despertando o desejo de superação da incerteza.
O desejo da verdade aparece muito cedo, é o desejo de confiar nas coisas e nas pessoas. Deste modo, conhecer é acreditar que as coisas e as pessoas são exatamente tais como a percebemos (pelos sentidos ou pela razão). No entanto, também nos decepcionamos muito cedo com nossas crenças e opiniões.
Assim, a busca da verdade também está ligada a uma decepção, a uma desilusão, a uma dúvida, a uma perplexidade, a uma insegurança ou, então, a um espanto e uma admiração diante de algo novo ou insólito. Esta busca, por outro lado, não é fácil, ela é dificultada por diversos mecanismos: pessoais, sociais, políticos, econômicos e de diversas ordens ou natureza.
A mídia como um dos principais empecilhos à busca da verdade, nos leva a acreditar que estamos recebendo as informações, filosóficas, científicas, políticas, religiosas e artísticas como sendo verdadeiras, pois, tais informações ultrapassam a experiência das pessoas que, por seu lado, não têm como avaliá-las. Atrelada à mídia, temos a propaganda como outro fator de dificuldade para a busca da verdade, visto que ela trata todas as pessoas como ingenuamente crédulas, pois, ela nunca vende um produto dizendo o que de fato ele é e para que serve, vende sempre uma imagem onírica ou paradisíaca de um mundo mágico, perfeito.
Outra dificuldade e de extrema importância, é a atitude dos políticos nos quais as pessoas acreditam, depositam suas esperanças e credibilidade para, em seguida, se verem ludibriadas e frustradas, não apenas porque as promessas não são cumpridas, mas também pelo fato de estarem envolvidos na corrupção e no desmando com a coisa pública.
Contudo, estas e outras dificuldades podem funcionar de um modo oposto, isto é, podem despertar o desejo de busca da verdade enquanto condição de conhecimento da realidade, da sociedade, da ciência, das artes e da política.
Podemos distinguir dois tipos de busca da verdade: o que nasce da decepção, da incerteza e da insegurança e o que nasce da deliberação, da decisão de não aceitar as certezas e crenças estabelecidas.

José Rogério de Pinho Andrade

3 comentários:

  1. Muito bom o seu texto. Eu o recebi pelo "Alerta" do Google. Estou à cata de artigos sobre Epistemologia.

    Se vc puder me sugerir um livro sobre o assunto que seja a 'bíblia' da Epistemologia...

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  2. Valeu pelo elogio Anderson F., a "bíblia" não posso te sugerir não, mas há um livro básico sobre o assunto que é o "Teoria do Conhecimento" do Johannes Hessen, Martins Fontes. Outros dois textos muito bons que você pode encontrar em "Teoria do Conhecimento e Teoria da Ciência" do Urbano Zilles, Paulus e "Epistemologia" de A. C. Garyling. In: Compêndio de Filosofia, Edições Loyola.

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