segunda-feira, 7 de maio de 2012

Esquema textual da Filosofia do Helenismo - Parte I

1. TRAÇOS CARACTERÍSTICOS DO HELENISMO:

·         Tendência à divisão dos escritos nos campos da lógica, da física e da ética;
·         Consideravam a física como um sustentáculo da ética: tendência ao naturalismo ético;
·         Recusa das figuras da transcendência e do supranatural;
·         Apresentam a filosofia em forma de sistemas ou doutrinas;
·         Formação de escolas para a transmissão das doutrinas;
·         Concepção de filosofia como medicina da alma, terapia para a felicidade.
·         Objetivo maior: “Renunciar a tudo o aquilo que não dependa de nós e buscar o que dependa de nós, o logos que habita todo ser humano”. (p. 18)

2. A PASSAGEM DA ERA CLÁSSICA PARA A ERA HELENÍSTICA: as consequências espirituais da revolução operada por Alexandre Magno (334 – 323 a.C.)

·         Desmoronamento da importância social e política da pólis grega;
·         Perda da autonomia política da pólis;
·         Desenvolvimento do cosmopolitismo;
·         Formação da identidade do “indivíduo” em substituição à do “cidadão”;
·         Separação entre ética e política como consequência da separação entre homem e cidadão;
·         Combate à ideia de escravidão natural.

3. PRINCIPAIS ESCOLAS FILOSÓFICAS DO HELENISMO

3.1. O CINISMO:

·         Fundador Antístenes;
·         Principal expoente Diógenes de Sinope:

ü  Máxima: “Procuro o homem”.
ü  As necessidades verdadeiramente essenciais ao homem são as necessidades elementares de sua animalidade;
ü  O modo de viver sem metas que a sociedade propõe como necessárias;
ü  Coincidência do modo de viver com a liberdade, que consiste em se libertar das necessidades supérfluas;
ü  Desprezavam o prazer, pois ele debilita o físico e o espírito e põe em perigo a liberdade (da palavra – parrhesía e de ação - anáideia.)
ü  A “autarquia” (bastar-se a si mesmo), a apatia e a indiferença eram os pontos de chegada da vida cínica;
ü  A felicidade vem de dentro e não de fora do homem.

·         Crates: difundiu o conceito de que as riquezas e a fama são para o homem sábio males e que a pobreza e a obscuridade são bons;

ü  O cínico deve ser apólide, pois ela não é refúgio do sábio;


 3.2. O EPICURISMO E OS JARDINS:

·         Surgiu em Atenas por fim do século IV a.C.
·         Epicuro de Samos (341 a.C.) e a Filosofia dos Jardins:

ü  A realidade é perfeitamente penetrável e cognoscível pela inteligência do homem;
ü  Existe espaço para a felicidade do homem;
ü  A felicidade é a falta de dor e de perturbação;
ü  Para atingir a felicidade, o homem basta-se a si mesmo;
ü  Não têm importância para o homem a cidade, as instituições, a nobreza, as riquezas e nem mesmo os deuses;
ü  Todos os homens são iguais, aspiram à paz de espírito, têm direito a ela e podem atingi-la se quiserem;
ü  A filosofia é formada pela lógica (verdade), pela física (constituição do real) e pela ética (a felicidade e os meios para alcançá-la).
ü  Critérios da Verdade – a Lógica Epicurista:

a)     Primeiro critério: a sensação colhe o ser de modo infalível: são “afecções” passivas produzidas por algo, são objetivas e verdadeiras e são a-racionais.
b)    Segundo critério: “prolepses” – representações mentais das coisas; impressões obtidas por meio da experiência;
c)     Terceiro critério: os sentimentos de dor e de prazer são critérios axiológicos para distinguir o bem e o mal.
d)    Evidência se dá a partir da ação direta que as coisas exercem sobre nosso espírito e as opiniões são obtidas por mediação;
e)     As opiniões verdadeiras recebem confirmação por parte da experiência, ou não recebem desmentido da experiência e evidência; as opiniões falsas são desmentidas pela experiência e pela evidência ou não recebem testemunho probante, confirmação pela experiência e evidência.

ü  A Física Epicurista: deve dar fundamento à ética. É uma ontologia de inspiração Atomista e do Eleatismo e possui os seguintes fundamentos:

a)     Nada nasce do não-ser e nenhuma coisa se dissolve no nada. A realidade sempre foi como é e sempre assim será;
b)    A fatalidade da realidade é determinada por dois componentes essenciais: os corpos e o vazio, que é “espaço”;
c)     A realidade é infinita como totalidade, tanto dos corpos, quanto do vazio;
d)    Há corpos composto e corpos simples e absolutamente indivisíveis (átomos);
e)     Há uma infinidade de mundos, pois os princípios atômicos são infinitos;
f)     Os mundos são infinitos no tempo e no espaço;
g)    Não há nenhuma inteligência na raiz dessa constituição de infinitos universos, nenhum projeto e nenhuma finalidade (clinámem – o casual e o fortuito);
h)     A alma é um agregado de átomos e como todos os agregados, ela é imortal;
i)      Os deuses existem, mas não se ocupam dos homens e com o mundo. como sabemos que os deuses existem: temos deles um conhecimento evidente e incontestável, é um conhecimento de todos os homens em todos os lugares e é um conhecimento objetivo produzidos por “simulacros”;

ü  A ética Epicurista – o Hedonismo:

a)     Se a essência humana é material, necessariamente será material o bem específico que torna o homem feliz – este bem é a natureza, o prazer.
b)    O verdadeiro prazer consiste na ausência da dor no corpo (aponía) e na ausência de perturbação da alma (ataraxia);
c)     A regra da vida moral não é o prazer como tal, mas a razão que julga e discrimina;
d)    Os diversos tipos de prazeres: naturais e necessários, naturais e não necessários e não naturais e não necessários;
e)     A felicidade é obtida satisfazendo-se os prazeres naturais e necessários, limitando-nos em relação aos segundos e fugindo dos terceiros;
f)     Para os prazeres naturais e necessários serem propiciados, bastamos-nos a nós mesmos – a autarquia (nossa maior riqueza e felicidade);
g)    Sobre o mal: se ele é físico e leve, não ofusca a alegria do espírito; se é agudo, passa logo e se é agudíssimo, logo conduz à morte (que é absoluta insensibilidade);
h)     Os males da alma resultam das opiniões falsas. A morte é um mal para quem nutre opiniões sobre ela, a morte dissolve o corpo e a alma, e não tolhe nada da vida porque a eternidade não é necessária para a absoluta perfeição do prazer;
i)      Desvalorização da vida política: os prazeres da vida política são não-naturais e não-necessários e comprometem a aponía e a ataraxia;
j)      Direito, lei e justiça só têm valor e sentido quando e à medida que são ligados ao útil; o Estado é um contrato tendo em vista o útil;
k)     A ligação social entre os indivíduos é a amizade, que nada mais é do que o útil sublimado e é o maior bem que se pode conquistar.


ü  O quadrifármaco e o ideal do sábio:

a)     São vãos os temores em relação aos deuses e ao além;
b)    O pavor em relação à morte é absurdo, pois ela não é nada;
c)     O prazer quando o entendemos corretamente, esta à disposição de todos;
d)    O mal dura pouco ou é facilmente suportável;
e)     O sábio é absolutamente imperturbável e pode competir em felicidade com os deuses;
f)     A felicidade pode vir de dentro de nós, pois o verdadeiro bem esta sempre e somente em nós: a vida. Para mantê-la não é preciso muita coisa e este pouco esta á disposição de todos, o resto é vaidade


Bibliografia consultada:

CHAUI, Marilena. Introdução à História da Filosofia: as escolas helenísticas. Volume II. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
REALE, Giovanni e ANTISERI, Dário. História da Filosofia: filosofia pagã antiga. Tradução Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003. p. 385.


José Rogério de Pinho Andrade

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Carta sobre a felicidade (a Meneceu) - Epicuro


Carta sobre a felicidade (a Meneceu) - Epicuro
Tradução de Desidério Murcho

Epicuro envia suas saudações a Meneceu, saudações.

Que nenhum jovem adie o estudo da filosofia, e que nenhum velho se canse dela; pois nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para cuidar do bem-estar da alma. O homem que diz que o tempo para este estudo ainda não chegou ou já passou é como o homem que diz que é demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade. Logo, tanto o jovem como o velho devem estudar filosofia, o primeiro para que à medida que envelhece possa mesmo assim manter a felicidade da juventude nas suas memórias agradáveis do passado, o último para que apesar de ser velho possa ao mesmo tempo ser jovem em virtude da sua intrepidez perante o futuro. Temos, portanto, de estudar o meio de assegurar a felicidade, visto que se a tivermos, temos tudo, mas se não a tivermos, fazemos tudo para obtê-la.
Pratica e estuda sem cessar aquilo que estava sempre a ensinar-te, tendo a certeza de que estes são os primeiros princípios da vida boa. Depois de aceitar deus como o ser imortal e bem-aventurado descrito pela opinião popular, nada mais lhe atribuas que seja estranho à sua imortalidade ou à sua bem-aventurança, mas antes acredita acerca dele seja o que for que possa sustentar a sua imortalidade bem-aventurada.
Os deuses existem realmente, pois a nossa percepção deles é clara; mas não são como a multidão os imagina, pois a maior parte dos homens não retém a imagem dos deuses que primeiro recebem. Não é o homem que destrói os deuses da crença popular que é ímpio, mas antes quem descreve os deuses nos termos aceites pela multidão. Pois as opiniões da multidão sobre os deuses não são percepções, mas antes falsas suposições. De acordo com estas superstições populares, os deuses enviam grandes males aos perversos, e grandes bem-aventuranças aos íntegros, pois, sendo sempre favoráveis às suas próprias virtudes, aprovam quem é como eles, encarando como estranho tudo o que é diferente.
Habitua-te à crença de que a morte não nos diz respeito, dado que todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte. Logo, a crença verdadeira de que a morte nada é para nós faz uma vida mortal feliz, não ao acrescentar-lhe um tempo infinito, mas ao eliminar o desejo de imortalidade.
Pois não há razão para que o homem que tem plena certeza de que nada há a recear na morte encontre algo que recear na vida. Assim, também é tolo quem diz que receia a morte não por ser dolorosa quando chegar, mas por ser dolorosa a sua antecipação; pois o que não é um peso quando está presente é doloroso sem razão quando é antecipado.
A morte, o mais temido dos males, não nos diz consequentemente respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é, portanto, nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são. Mas os homens em geral por vezes fogem da morte como o maior dos males, por vezes almejam-na como um alívio para os males da vida.
O homem sábio nem renuncia à vida nem receia o seu fim; pois a vida não o ofende, nem supõe que não viver é de algum modo um mal.
Tal como não escolhe a comida da qual há maior quantidade, mas a que é mais agradável, também não procura a satisfação da vida mais longa, mas sim a da mais feliz.
Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem é tolo não apenas porque a vida é desejável, mas também porque a arte de viver bem e a arte de morrer bem são uma só. Contudo, muito pior é quem diz que é bom não ter nascido, mas uma vez nascido, que o melhor é passar depressa pelos portões do Hades.
Se um homem diz isto e realmente acredita nisto, por que razão não se retira da vida? Certamente que os meios estão à mão se for realmente essa a sua convicção. Se o diz a zombar, é visto como um tolo entre quem não aceita o seu ensinamento.
Lembra-te que o futuro nem é nosso nem é completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá de certeza nem podemos abandonar a esperança nele com a certeza de que não virá.
Tens de considerar que alguns desejos são naturais, outros vãos, e dos que são naturais alguns são necessários e outros apenas naturais. Dos desejos naturais, alguns são necessários para a felicidade, alguns para o bem-estar do corpo, alguns para a própria vida. O homem que tem um conhecimento perfeito disto saberá como fazer toda a sua escolha ou rejeição tender para ganhar saúde do corpo e paz de espírito, dado que este é o fim último da vida bem-aventurada. Pois para alcançar este fim, nomeadamente a libertação da dor e do medo, fazemos tudo.
Quando se atinge esta condição, toda a tempestade da alma sossega, dado que a criatura nada mais precisa fazer para procurar algo que lhe falte, nem de procurar qualquer outra coisa para completar o bem-estar da alma e do corpo. Pois só sentimos a falta de prazer quando sentimos dor com a sua ausência; mas quando não sentimos dor já não precisamos de prazer.
Por esta razão, dizemos que o prazer é o princípio e o fim da vida bem-aventurada. Reconhecemos o prazer como o bem primeiro e natural; partindo do prazer, aceitamos ou rejeitamos; e regressamos a isto ao ajuizar toda a coisa boa, usando este sentimento de prazer como o nosso guia.
Precisamente porque o prazer é o bem principal e natural, não escolhemos todo o prazer, mas por vezes abstemo-nos de prazeres se estes forem cancelados pelas privações que se seguem; e consideramos muitas dores melhores do que prazeres quando um maior prazer virá até nós depois de termos sofrido dores demoradas. Todo o prazer é um bem dado ter uma natureza congênere da nossa; contudo, nem todo o prazer deve ser escolhido. De igual modo, toda a dor é um mal, contudo nem toda a dor é de natureza a ser evitada em todas as ocasiões. Pesando e olhando para as vantagens e desvantagens, é apropriado decidir todas estas coisas; pois em certas circunstâncias tratamos o bem como mal e, igualmente, o mal como bem.
Encaramos a autossuficiência como um grande bem, não para que possamos desfrutar apenas de poucas coisas, mas para que, se não tivermos muitas, nos possamos satisfazer com as poucas, estando firmemente persuadidos de que quem retira o maior prazer do luxo é quem o encara como menos preciso, e que tudo o que é natural se obtém facilmente, ao passo que os prazeres vãos são difíceis de obter.
Na verdade, temperos simples dão um prazer igual ao dos banquetes pródigos quando a dor devida à necessidade for removida; e pão e água dão o máximo prazer quando uma pessoa necessitada os consome.
Estar acostumado à vida simples e básica conduz à saúde e faz um homem ficar pronto a enfrentar as tarefas necessárias da vida. Prepara-nos também melhor para usufruir o luxo se por vezes tivermos a sorte de encontrá-lo, e faz-nos intrépidos face à fortuna.
Quando dizemos que o prazer é o fim, não queremos dizer o prazer do extravagante ou o que depende da satisfação física — como pensam algumas pessoas que não compreendem os nossos ensinamentos, discordam deles ou os interpretam malevolamente — mas por prazer queremos dizer o estado em que o corpo se libertou da dor e a mente da ansiedade. Nem beber e dançar continuamente, nem o amor sexual, nem a fruição de peixe, ou seja, o que for que a mesa luxuosa oferece gera a vida agradável; ao invés, esta é produzida pela razão que é sóbria, que examina o motivo de toda a escolha e rejeição, e que afasta todas aquelas opiniões através das quais a mente fica dominada pelo maior tumulto.
De tudo isto o bem inicial e principal é a prudência. Por esta razão, a prudência é mais preciosa do que a própria filosofia. Todas as outras virtudes nascem dela. Ensina-nos que não é possível viver agradavelmente sem ao mesmo tempo viver prudentemente, nobremente e justamente, nem viver prudentemente, nobremente e justamente sem viver agradavelmente; pois as virtudes cresceram em união íntima com a vida agradável, e a vida agradável não pode ser separada das virtudes.
Quem pensas então que é superior ao homem prudente, que tem opiniões reverentes sobre os deuses, que não tem qualquer medo da morte, que descobriu qual é o maior bem da vida e que compreende que o mais alto bem é fácil de alcançar e manter e que o extremo do mal tem limites no tempo ou no sofrimento, e que se ri do que algumas pessoas inventaram como a regente de todas as coisas, a Necessidade? Ele pensa que o poder de decisão principal nos cabe a nós, apesar de algumas coisas surgirem por necessidade, algumas por acaso e algumas pelas nossas próprias vontades; pois ele vê que a necessidade é irresponsável e o acaso incerto, mas que as nossas ações não estão sujeitas a qualquer poder. É por esta razão que as nossas ações merecem louvor ou censura. Seria melhor aceitar o mito sobre os deuses do que ser um escravo do determinismo dos físicos; pois o mito sugere uma esperança de graça através das honras concedidas aos deuses, mas a necessidade do determinismo é inescapável. Visto que o homem prudente não encara, como muitos, o acaso como um deus (pois os deuses nada fazem de maneira desordenada) ou como uma causa instável de todas as coisas, acredita que o acaso não dá ao homem o bem e o mal para fazer a sua vida feliz ou miserável, mas que fornece oportunidades para grandes bens ou males. Finalmente, ele pensa que é melhor encontrar o infortúnio quando se age com razão do que calhar a ter boa fortuna ao agir insensatamente; pois é melhor não ocorrer o que foi bem planeado nas nossas ações do que ser bem-sucedido por acaso o que foi mal planeado.
Medita nestes preceitos e noutros como estes, de dia e de noite, sozinho ou com um amigo da mesma opinião. Então nunca terás receio, de dia ou de noite; mas viverás como um deus entre os homens; pois a vida no seio de bem-aventuranças imortais não é de modo algum como a vida de um mero mortal.

Epicuro
Tradução de Desidério Murcho
Nota do tradutor
Esta é uma tradução da tradução inglesa anônima disponível  no site da Universidade da Colúmbia. Esta tradução supera claramente a tradução de Brad Inwood e L. P. Gerson (Hackett) e a mais antiga de Robert Drew Hicks, iluminando algumas partes do texto que até agora eram algo incongruentes.