domingo, 21 de abril de 2019

O Fascismo Eterno (Umberto Eco) - Breves anotações

O Fascismo Eterno (Umberto Eco) – Breves anotações
Por: José Rogério de Pinho Andrade

O texto de Umberto Eco foi uma conferência realizada em 25 de abril de 1995 na Columbia University para celebrar a libertação da Europa e foi publicado pela primeira vez no mesmo ano como “Totalitarismo fuzzy e Ur-Fascismo”. Dirigido aos jovens estudantes dos EUA, e diante de um contexto de descoberta de que existia nos EUA organizações de extrema-direita, o texto pretendia estimular uma reflexão sobre problemas da atualidade de diversos países.
Didática e autobiograficamente, o texto relata a experiência de Umberto Eco com a realidade italiana e europeia no período da Segunda Guerra Mundial marcada pelo Fascismo e a luta da Resistência pela liberdade e pela libertação.
Segundo Umberto Eco, é totalitarista o “regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então o nazismo e o stalinismo eram regimes totalitários”. (ECO, 2018, posição 122).
Partindo deste conceito, o autor considera que o fascismo não foi um regime completamente totalitário, embora tenha sido uma ditadura. A principal razão para este ponto de vista está na debilidade filosófica da ideologia do fascismo que não possuía uma filosofia própria, quando muito uma retórica própria. (ECO, 2018, posição 133).
Por isto mesmo,

Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini. (ECO, 2018, posição 139).

Embora não possuísse uma ideologia própria, mas tão somente uma retórica própria, o fascismo foi capaz de propagar sua mensagem no continente europeu como uma reação ao comunismo, segundo Umberto Eco (2018)

O fascismo italiano convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista. (ECO, 2018, posição 145-147).

O fascismo na compreensão de Umberto Eco, não possuía nenhuma essência, não era uma ideologia monolítica e não passava de um totalitarismo fuzzy[1] por ser o resultado de uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas. (ECO, 2018, posição 148). O fascismo proclamava uma ordem revolucionária, “mas era financiado pelos proprietários rurais mais conservadores que esperavam uma contrarrevolução”. (ECO, 29018, posição 161), era republicano no início, mas proclamava lealdade à família real. Em suma, “o fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.” (ECO, 2018, posição 189).
Ao contrário do nazismo que pode ser caracterizado como único, o fascismo pode ter em seu termo uma adaptação “a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista.” (ECO, 2018, posição 215-217).
Mas a despeito da confusão do que pode definir o fascismo, o autor indica uma lista de características típicas, embora podendo ser contraditórias entre si, daquilo que ele veio a chamar de “Ur-Fascismo” ou “Fascismo Eterno”, são elas:
1. O culto à tradição, ao sincretismo que deve tolerar contradições e como consequência “não pode existir avanço do saber”, pois a verdade já foi anunciada cabendo apenas a interpretação de sua obscura mensagem. (ECO, 2018, posição 228-236).
2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade enquanto espírito de 1789 (ou de 1776). O Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”. (ECO, 2018, posição 243).
3. O irracionalismo depende do culto da ação pela ação, a ação sem reflexão. “Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas”. (ECO, 2018, posição 252-253). Deste modo, tem-se a suspeita em relação ao mundo intelectual e os intelectuais fascistas empenhavam-se em “acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais”. (ECO, 2018, posição 254).
4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas, “para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição” (ECO, 2018, posição 254).
5. “O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso utilizando e exacerbando o natural medo da diferença”, assim, é “racista por definição”. (ECO, 2018, posição 261).
6. Como o “Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social”, uma das características típicas dele é “o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos”. (ECO, 2018, posição 261).
7. Ênfase nos ideais do nacionalismo, “assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão da conspiração, possivelmente internacional”. (ECO, 2018, posição 270).
8. Os adeptos do Ur-Fascismo “devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo”. Entretanto, também devem ser convencidos de que podem vencer os inimigos: este são fortes demais e fracos demais ao mesmo tempo. (ECO, 2018, posição 270).
9. “Para o Ur-Fascismo, não há luta pela vida, mas antes ‘vida para a luta’. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente”. (ECO, 2018, posição 278).
10. Elitismo e desprezo pelos fracos: “O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos implicaram o desprezo pelos fracos”. (ECO, 2018, posição 286). O Ur-fascismo prega um elitismo popular de caráter nacionalista (todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo) e idólatra do líder como expressão de um elitismo de massa.
11. Educação para o heroísmo: cada cidadão é educado para tornar-se um herói, pois na “ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma”. O culto do heroísmo é ligado ao culto da morte como uma aspiração de uma vida heroica. (ECO, 2018, posição 293).
12. Transferência da vontade de poder para questões sexuais, tais como misoginia e homofobia, pois a guerra permanente e o heroísmo, são jogos difíceis de jogar.
13. Populismo qualitativo afetando as decisões políticas da democracia sob sua perspectiva quantitativa (as decisões da maioria serem acatadas). O povo é concebido como uma entidade monolítica que exprime a “vontade comum” representada na figura de seu líder. Assim, o Ur-Fascismo se opõe ao Parlamento que considera “apodrecido”. (ECO, 2018, posição 302-310).
14. Uso da “novilíngua”[2]: a língua utilizada pelo Ur-Fascismo é de “um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico”, podendo aparecer nos tempos atuais na forma de programas midiáticos como “talk show” popular e memes de internet. (ECO, 2018, posição 327).
   Mesmo com a queda dos regimes totalitários e autoritários após a Segunda Guerra Mundial, o “Ur-Fascismo está ao nosso redor, às vezes em trajes civis” e, por isto mesmo, não é impossível que ele volte, ao contrário, é possível que ele volte “sob as vestes mais inocentes” e por isto precisa ser desmascarado em cada uma de suas formas, pois “liberdade e libertação são uma tarefa que não acaba nunca. Que este seja o nosso mote: ‘Não esqueçam’”. (ECO, 2018, posição 340).


Referência bibliográfica:

ECO, Umberto. O fascismo eterno. Tradução Eliana Aguiar. 1 ed. Rio de Janeiro: Record, 2018. (Ebook Kindle).




[1] Termo que na lógica designa conjuntos “esfumaçados”, de contornos imprecisos, podendo ser traduzido como “esfumado”, “confuso”, “impreciso”, “desfocado”.
[2] Referência ao termo inventado por George Orwell em seu romance distópico “1984”, como língua oficial do Ingsog, o socialismo inglês.

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