segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Filosofia: problema de origem e conceituação

Tanto em termo, quanto em conceito, a Filosofia é uma produção tipicamente grega. Enquanto termo, é composta por duas outras palavras gregas philos e Sophia. A primeira derivando de Philia e significando amizade, amor fraternal. A segunda denotando sabedoria. Assim, o termo philosophia pode ser traduzido como: amizade à sabedoria ou amor à sabedoria, sendo o amante do saber um philosopho.
Enquanto conceito, a filosofia é entendida como “aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade natural e humana, da origem e causas do mundo e de suas transformações, da origem e causa das ações humanas e do próprio pensamento.” E, desse modo, aparece pela primeira vez na região da Ásia Menor, na Grécia.
Evidentemente, não se trata de afirmar que outras culturas e povos, principalmente os Orientais, não possuíam um saber. Trata-se de reconhecer as características próprias desse novo saber dentro do contexto sócio-político específico do mundo Grego, o que permite apontar uma superioridade do mesmo em relação a outros povos neste ponto específico.
Embora outros setores componentes do povo grego possuíssem correspondências junto aos demais povos do Oriente, que alcançaram um nível elevado de civilização antes deles, no que se refere à Filosofia, não encontramos nada que se assemelhe àquilo que floresceu nas colônias da Ásia menor. Mas, não há tampouco nada que lhe seja estreita e especificamente análoga.
Não faltaram tentativas de aproximar, e até situar, a origem da Filosofia no Oriente. Tais tentativas, entretanto, esbarram em uma série de provas contrárias à tal tese orientalista do surgimento da Filosofia.
Uma primeira tese diz respeito aos registros históricos. Não há, na época clássica da Filosofia, nenhum acesso dos filósofos ou historiadores à pretensa origem da Filosofia no Oriente. Algumas tentativas realizadas por filósofos gregos da Era Cristã, mais buscavam justificar uma legitimação de si diante dos cristãos, já que haviam perdido a confiança na visão clássica de Filosofia.
É bem verdade, a história confirma este fato, que os povos orientais possuíam uma sabedoria. Uma forma análoga ao conhecimento dos gregos sobre o Homem e o Mundo. No entanto, era feita de convicções mítico-religiosas e cosmogônicas e não uma sabedoria fundamentada na razão pura, como denominada pelos gregos de logos, portanto, anterior à Filosofia.
Considerando que algumas idéias dos filósofos gregos possam ter antecedentes na sabedoria oriental, isto não mudaria o fato de que, com efeito, ao surgir na Grécia, a Filosofia representou uma forma nova de expressão espiritual que, mesmo acolhendo outras formas espirituais, as modificava dando-lhes uma estrutura formal e rigorosamente lógica. Por outro lado, não temos conhecimento da utilização pelos pensadores regos, de quaisquer escritos orientais ou traduções desses na composição de um pensamento filosófico.
Como sabemos, os gregos utilizaram algumas referências “científicas” provenientes dos Orientais. Dos egípcios, alguns conhecimentos matemático-geométricos. Dos babilônios, algumas concepções astronômicas. Embora carregados de conteúdos, de uma certa sabedoria, tais conhecimentos “científicos” possuíam caracteres eminentemente práticos , voltados apenas para soluções cotidianas sem uma conotação especulativa.
Produzindo um conhecimento com fins práticos, os povos Orientais desenvolveram uma atividade racional no sentido de estabelecerem soluções pensadas para os seus problemas. Entretanto, os gregos transformaram tais noções em uma Teoria geral e sistemática, realizaram uma construção racional e orgânica animados pelo “amor à sabedoria”.
Outros pontos reforçam a tese de nascimento desse novo modo de pensar o mundo tipicamente grego, a Filosofia. No caminho da demonstração dessa afirmação, emergem de modo significativo uma referência à arte, à religião e às condições sócio-políticas grega.
Quanto à arte, a referência limitar-se-á aos poemas épicos devido à importância que têm na educação e formação espiritual do homem grego. Os poemas homéricos, principalmente a Ilíada e a Odisséia, embora com uma concepção pré-filosófica, mítica, tratam a narrativa imaginária levando em conta um sentido de harmonia, de proporção, de limite e de medida, o que seriam posteriormente elevados pela Filosofia à condição de Princípios Ontológicos. Os poemas não se limitam a narrar os acontecimentos, mas pesquisam nos fatos suas causas e suas razões, o que desencadeará filosoficamente na busca da “causa”, do “princípio” e da “arché”. Por fim, procuram apresentar a realidade em sua inteireza, embora de maneira mítica; a Filosofia o fará pelo modo racional.
Hesíodo em sua Teogonia, também contribuiu para a formação de uma espiritualidade única na História. A narrativa sobre a origem dos deuses, coincide com uma narrativa da origem dos fenômenos, do Cosmo (Universo), isto é, com uma Cosmologia. Os deuses e fenômenos se confundem entre si, pois a gênese do Cosmo a partir do Caos, narrada de forma mítico-poética, aplaina as bases para uma cosmologia filosófica que busca no “princípio primeiro”, explicado pela razão, a origem de tudo o que existe.
Quanto à Religião, ao situarmos o contexto grego antigo, é preciso distinguir as esferas religiosas existente, isto é, distinguir entre a religião pública e a religião dos mistérios. Ambas, com seus pontos dissidentes e concordantes, têm importância na solução da questão referente à origem da filosofia, contudo, a religião dos mistérios tende a ser mais relevante do que a religião pública.
Estabeleçamos a relação. A religião pública, que tem como ponto inicial de crenças os poemas de Homero e de Hesíodo, parte do princípio de que tudo é divino, tudo o que ocorre é explicado em função da vontade dos deuses, desde os fenômenos naturais até a realidade da vida social dos homens. A fundamentação de tudo é encontrada na intervenção panteísta de que os deuses se encontram em tudo. Os deuses são entendidos, na verdade, como forças naturais personificadas ou aspectos dos homens sublimados. São, neste sentido, homens amplificados e idealizados, diferindo dos deuses apenas em quantidade. A natureza humana e a natureza divina, confundem-se e diferenciam-se entre si de modo quantitativo e não qualitativo, onde a primeira realiza-se se elevando a si mesma. A religião pública é caracterizada por um naturalismo, assim como foi a filosofia pré-socrática.
Nem todos os gregos consideravam a religião pública suficiente. Assim, desenvolveu-se em círculos restritos, a religião dos mistérios que tinha como principal influência na filosofia grega os “mistérios órficos”. O orfismo tem particular importância porque introduz na civilização grega um novo esquema de crenças e uma nova interpretação da existência humana. Como núcleo central, destacamos: a) o homem possui um princípio divino, a alma, hospedado em seu corpo; b) essa alma, além de preexistir ao corpo, está destinada a reencarnar-se a fim de expiar a culpa do “pecado origina”; a vida “órfica” é o único caminho para pôr fim às reencarnações; d) para os iniciados nos mistérios, há um premio no além, para os não-iniciados, uma punição.
Esse novo esquema de crenças introduz a concepção de homem fragmentado por dois princípios em contraste e luta: a alma, como elemento divino que precisa ser justificado, e o corpo, como lugar para expiação da alma. Rompe-se a visão Naturalista: algumas tendências do corpo devem ser reprimidas e a purificação da alma torna-se o objetivo de viver.
Como última observação quanto à religião, cabe destacar o fato de que os gregos não tiveram livros sacros considerados frutos de uma revelação divina, por conseguinte, não possuíam uma dogmática fixa e imutável, e muito menos uma classe sacerdotal custódia do dogma. A inexistência desses fatores permitiu uma ampla liberdade para o pensar filosófico.
A liberdade da qual os gregos se beneficiaram, diz respeito também à liberdade política. Aqui, podemos começar a destacar as condições sócio-políticas e econômicas que favoreceram o surgimento da Filosofia. É bem verdade que nos Séculos VII a VI a.C. a Grécia passou por profundas transformações socioeconômicas: de país predominantemente agrícola, passou a desenvolver uma produção industrial e comercial, o que levou à criação de centros comerciais, surgidos, primeiramente, nas colônias Jônicas, particularmente Mileto, e, posteriormente, em outros lugares, principalmente Atenas.
Com o surgimento da Pólis, Cidade-estado, e o seu desenvolvimento, o novo segmento social, formado pelos comerciantes e industriais artesanais, começa a questionar e se opor em relação à aristocracia fundiária e erigir um novo modo de vida pública fundado, não mais na virtude guerreira, mas na virtude civilizadora do homem que fundou a Pólis. Esse novo sentimento deu ao espírito grego um impulso do qual a ciência não poderia ficar de fora. A vida pública abria caminho para a ciência.
A constituição da Pólis veio encarnar a concepção do homem como cidadão. É no debate público que o homem se realiza essencialmente, aqui ele coincide com o cidadão e o Estado tornou-se o se horizonte ético. Desenvolver e aprimorar o Estado significa preparar o cidadão (o homem) para enfrentar a sua nova realidade. Aqui, mas do que nunca, o logos, a palavra racional torna-se imprescindível. A Filosofia começa a vislumbrar o seu sucesso como constituinte fundamental da formação da cidade e de seus ocupantes, pois irá permitir o debate e a construção racional dos mesmos.
Realizadas tais considerações quanto ao problema da origem da Filosofia, descreveremos a questão do problema da conceituação grega da Filosofia.
Etimologicamente o termo Filosofia significa “amizade à sabedoria” ou “amor à sabedoria” denotando uma busca incessante. Mas, substancialmente, o que entendiam os gregos por essa amada e buscada “sabedoria”?
Desde o seu nascimento a Filosofia possui três conotações claras e dizem respeito a) ao seu conteúdo, b) ao seu método e c) ao seu objetivo.
Quanto ao conteúdo, a Filosofia pretende dar uma explicação à totalidade das coisas, à realidade em sua totalidade. Para tanto, o questionamento dos primeiros filósofos, a saber, “Qual é o princípio de todas as coisas?”, traz como objeto de investigação filosófica a proposta de compreensão da totalidade da realidade e do Ser e, precisamente, descobrindo-se o primeiro princípio encontra-se a totalidade da realidade e do Ser.
No que concerne ao método, a busca daquela totalidade a qual a filosofia tem como objeto, é realizada por um caminho puramente racional. O que vale á a fundamentação baseada no logos, no argumento e na razão. Não basta a constatação dos fatos, é preciso encontrar as causas precisamente através da razão.
Por fim, o objetivo da Filosofia está no puro desejo de conhecer e contemplar a verdade. É amor desinteressado pela Verdade. Embora não tenha objetivos práticos, utilitaristas, a Filosofia não se realiza como algo vazio e sem sentido. Ela possui uma enorme relevância moral e política. A contemplação do mundo carrega consigo mudanças de valores e de visão do mundo e do próprio homem, trazendo um novo significado para a vida e para o próprio homem.
O filosofar tem sua origem marcada pela admiração do homem diante de si e do mundo, diante de toda a totalidade. Sendo assim, a filosofia é irrenunciável e inapagável, pois não se pode extinguir a admiração diante do Ser, nem se pode renunciar à necessidade de satisfazê-la. Enquanto o homem maravilhar-se diante do Ser das coisas e do seu próprio ser, a Filosofia permanecerá.
José Rogério de Pinho Andrade

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