domingo, 10 de setembro de 2017

ONTOLOGIA DOS VALORES: uma explicação a partir do texto de Manoel Garcia Morente.


Ontologicamente há coisas (objetos) reais e objetos ideais. Existem no sentido mesmo de ser, são entes. Entretanto, quando se trata de valor, em que sentido é possível afirmar que “há valores”?
Diante da realidade existencial do mundo, ele não é indiferente para o ser humano. Não há nada que exista perante o qual o ser humano não adote uma postura positiva ou negativa, uma posição de preferência, de avaliação, de valoração. Neste sentido, “não há coisa alguma que não tenha um valor.” (GARCIA MORENTE, 1980, p. 298)
O que se enuncia de alguma coisa quando ela é avaliada como boa ou má, útil ou inútil? Certamente não é da ordem do ser que se trata tal avaliação, mas sim da ordem do valer. O que é enunciado é o valor. Entretanto, do que se trata o valor?
A filosofia tem distinguido entre juízos de existência ou realidade e juízos de valor. Os primeiros “enunciam de uma coisa aquilo que ela é, enunciam propriedades, atributos, predicados dessa coisa, que pertencem ao ser dela, tanto do ponto de vista da existência dela como ente, como do ponto de vista da essência que a define.” Já os juízos de valor “enunciam acerca de uma coisa algo que não acrescenta nem tira nada do cabedal existencial e essencial da coisa. Enunciam algo que não se confunde nem com o ser enquanto existência nem com o ser enquanto essência.” (GARCIA MORENTE, 1980, p. 298)
Como conclusão, tem-se que “os valores não são coisas nem elementos das coisas”, mas também, como erroneamente já se considerou, os valores não são impressões de caráter subjetivo de agrado ou desagrado que as coisas produzem no sujeito e que o sujeito projeta nas coisas. O critério do valor não é uma propriedade do ser do objeto e muito menos um sentimento ou uma projeção sentimental do sujeito, pois “acerca do agrado ou desagrado subjetivo não há discussão possível”, enquanto dos valores é possível discutir.
É possível discutir sobre os valores porque eles são objetivos, eles estão aí e não são simplesmente o resíduo de avaliações subjetivas. Os valores não são coisas, mas também não são impressões subjetivas, pois não possuem a categoria própria dos objetos reais e dos objetos ideais, isto é, não possuem a categoria de ser. “os valores não são, mas valem”, pois uma coisa é valor e outra coisa é ser. (GARCIA MORENTE, 1980, p. 300)
Dizer que algo vale, não é dizer o seu ser, mas dizer que não é indiferente. Deste modo, “a não-indiferença constitui esta variedade ontológica que contrapõe o valor ao ser. A não-indiferença é a essência do valer.” Esclarecendo-se ainda mais, afirma-se que “ter valor não é ter uma realidade entitativa a mais ou a menos, mas simplesmente não ser indiferente, ter esse valor.” (GARCIA MORENTE, 1980, p. 300)
O valor é uma qualidade, é algo que se adere ao ente embora não o caracterize enquanto tal. É uma qualidade irreal porque não é uma coisa, não é uma “res”. Mas também não é uma qualidade ideal porque não tem fundamento e consequências, não demonstra a “valiosidade” da coisa, mas tão somente mostra-a. os valores, portanto, não são qualidades reais e nem ideais, são qualidades irreais.
Os valores possuem ainda as seguintes características: são independentes do número, do tempo e do espaço; são absolutos, mas são percebidos e intuídos relativamente pelos seres humanos. Assim, “os valores não são entes, mas valentes. Que os valores são qualidades de coisas, qualidades irreais, qualidades alheias à quantidade, ao tempo, ao número, ao espaço, e absolutas.” (GARCIA MORENTE, 1980, p. 303)
A não-indiferença em que consiste o valor implica, necessariamente, uma polaridade como possibilidade de afastamento, positivo ou negativo, do ponto zero de indiferença. Isto é, “na entranha mesma do valer está contido que os valores tenham polaridade: um polo positivo e um polo negativo. Todo valor, tem seu contravalor.” (GARCIA MORENTE, 1980, p. 303)
 Ao contrário da polaridade dos sentimentos ou da polaridade psicológica que é infundada por força da subjetividade, a polaridade dos valores é “fundada, porque os valores expressam qualidades irreais, mas objetivas, das coisas mesmas.” (GARCIA MORENTE, 1980, p. 304)
Os valores são também hierárquicos. Há uma multiplicidade de valores e, enquanto tal, são modos de não-indiferença e “essa não-indiferença dos valores nas suas relações múltiplas, uns com respeito aos outros, é o fundamento de sua hierarquia.” (GARCIA MORENTE, 1980, p. 304)
Afirmar que há hierarquia entre os valores, significa reconhecer que determinados valores afirmam-se superiores em relação a outros, como por exemplo, que os valores religiosos afirmam-se superiores aos valores éticos, que por sua vez afirmam-se superiores aos valores estéticos, que afirma-se superiores aos valores lógicos, etc. O que se quer dizer, portanto, que um valor se afirma superior a outro?
 A resposta de Garcia Morente (1980, p. 305) esclarece que se for considerado um ponto zero de indiferença, mais valiosos são os valores mais distantes deste ponto zero. Assim, diante da condição de escolher entre os valores, o sacrifício deve ser feito em relação aos valores mais próximos do ponto zero de indiferença, pois quanto mais distante, menos indiferentes são os valores. Assim, entre salvar a vida de uma criança ou deixar que se destrua um quadro, a preferência se faz sobre salvar a vida da criança.
Por fim, Garcia Morente (1980, p. 305-306) faz duas observações importantes ainda com relação à hierarquia dos valores: a primeira afirma que o estudo pormenorizado de um determinado grupo de valores, leva a uma ciência correspondente ao grupo ao qual os valores fazem parte. Assim, a teoria pura dos valores úteis, é o fundamento da ciência econômica. Os estudos dos valores morais, serve de fundamento à ética, assim como o estudo dos valores lógicos, servem de base à lógica.
Quanto à segunda observação, a teoria dos valores como não-indiferença, não renuncia à unidade do ser, pois, precisamente porque

Os valores não são é que não atentam nem menoscabam em nada a unidade de ser. Dado que não são, mas que valem, que são qualidades necessariamente aderidas de coisas, estão necessariamente aderidas às coisas. Representam aquilo que na realidade há de valer. (GARCIA MORENTE, 1980, p. 307)

Deste modo, integra-se à realidade, porque confere-lhe um valor, isto é, os valores não são, mas representam qualidades valiosas das coisas mesmas. (GARCIA MORENTE, 1980, p. 307).

Referência:

GARCIA MORENTE, Manuel. Fundamentos de filosofia. Tradução e prólogo Guilhermo de la Cruz Coronado. 8ª ed. são Paulo: Mestre Jou, 1980.

A experiência estética e o juízo de gosto

A experiência estética possui um caráter emocional e contemplativo e é expressa por meio de termos como Belo, delicado, sublime, inspirador, gosto, comovente e outros. A forma mais complexa e intensa da experiência estética é proporcionada por meio da apreciação da arte. (GARDNER, 2002, p. 229). Enquanto a filosofia da arte investiga os sentidos da arte, a estética investiga os sentidos da experiência estética apontando questionamentos relativos ao Belo e à Beleza, bem como ao juízo de gosto que resulta da relação com o Belo e a Beleza.
Dentre as diversas reflexões produzidas sobre o tema, destacam-se as reflexões produzidas por David Hume e por Immanuel Kant no século XVIII. Para ambos, o juízo estético exemplifica o gosto e refere-se ao modo especial de uso das faculdades mentais caracterizado por ser uma resposta sentida a um objeto e por não ser definido por regras ou princípios. O interesse estético se dirige a objetos particulares e não a verdades universais.
Em tais concepções estéticas, contrariando as concepções clássicas e racionalistas anteriores, as qualidades estéticas não são objetivas, não são propriedades do objeto alcançadas pelo conhecimento estético delas. A postura destes pensadores pode ser classificada como subjetivismo estético, em contraposição ao objetivismo estético das concepções clássicas e racionalistas anteriores.
O subjetivismo estético nega que a experiencia estética resulte das qualidades estéticas próprias do objeto, embora admita a afetação estética do sujeito pelo objeto, mesmo que tal afetação não se equipare a um conhecimento das propriedades estéticas do objeto. De acordo com tal concepção, “a beleza de um objeto consiste em produzir certa resposta no sujeito”. (GARDNER, 2002, p. 231). Observou David Hume, que o gosto se apresenta diversificado e relativo. Entretanto, a razão de tal diversidade (e até divergência) resulta da carência “de métodos consensuais para alinhar juízos divergentes”. Quanto ao gosto e seu juízo próprio, não é possível apelar para regras e “as qualidades estéticas são elusivas em alto grau”. (GARDNER, 2002, p. 231).
Já o filósofo Immanuel Kant destaca que “o prazer é essencial para a experiência que fundamenta um juízo estético”. (GARDNER, 2002, p. 231). Entretanto, o prazer não designa nada no objeto: “um juízo estético simplesmente relata o estado mental do falante, e as preferências estéticas são equivalentes às preferencias de gosto”. (GARDNER, 2002, p. 231).
O gosto, embora de caráter subjetivista, não incorre em um relativismo irrestrito. Segundo Hume, é possível afirmar que há um padrão de gosto que reside na sensibilidade do sujeito, não no objeto: “os juízos estéticos não identificam qualidades estéticas inerentes aos objetos, mas tampouco se relacionam exclusivamente às experiencias do sujeito”. (GARDNER, 2002, p. 233). Para Kant, o juiz estético pressupõe a existência de um sentido comum nas apreciações, que é universal, universalidade condicionada e, por isto mesmo, diferente da universalidade lógica dos juízos do conhecimento e da moral, cujas conclusões são necessariamente universais e objetivas, passíveis de serem provadas e demonstradas. A universalidade que está pressuposta no juízo estético é essencialmente de caráter subjetivista, é a universalidade subjetiva, das condições do sujeito e não das qualidades do objeto. (MELANI, 2013, p. 309).
Para David Hume, o problema do gosto depende de fatos contingentes da natureza. Assim, algumas formas agradam ou desagradam por sua condição natural e, também, há “a uniformidade contingente da sensibilidade humana, a igualdade na ‘estrutura original da tessitura interna’ de nosso espírito” que explica que as sensibilidades humanas são do mesmo gênero e as diferenças resultem de sutilezas e outras deficiências de gosto determináveis. (GARDNER, 2002, p. 233-234).
Para Kant, os juízos estéticos estão relacionados “com uma faixa da nossa experiência, diferente da empírica, que é de caráter cognoscitivo, e diferente da experiência moral dos princípios universais válidos para a conduta”. (NUNES, 2002, p. 49). Os juízos estéticos ou juízos de gosto manifestam o Belo e a Beleza fundamentados em uma satisfação interior de caráter desinteressado, contemplativo, proveniente das representações ou intuições, desembaraçadas dos conceitos do Entendimento. (NUNES, 2002, p. 49). O prazer provocado pela experiencia estética difere do prazer sensível porque tende à universalização, enquanto este tende à experiência particular., assim, o Belo é de caráter universal, embora não objetivo.
Segundo Bendito Nunes (2002, p. 50), em Kant compreende-se que

No juízo de gosto, relacionado com a satisfação desinteressada, contemplativa, apreciamos a Beleza por si mesma, desprendida dos nexos causais que constituem a ordem natural dos fenômenos como se, através dela, se afirmasse nas coisas a liberdade da qual emanam os fins ideais integrantes da ordem ética, e que é uma afirmação no Espírito”.

Tanto em Kant, quanto em Hume, “o fato de os juízos estéticos poderem ser justificados distingue-os do mero gostar e torna-os, em sentido lato, racionais”. (GARDNER, 2002, p. 234). Neste sentido,

Oferecer razões em estética difere fundamentalmente de oferecer razões em outros contextos e possui peculiaridades que dificultam sua compreensão, pois as razões estéticas operam de modo independente de todas as condições que parecem essenciais ao próprio conceito de razão. (GARDNER, 2002, p. 234).


Por fim, segundo Kant, a atitude estética considera o objeto de maneira desapaixonada, desinteressada e “por si próprio”. Segundo Benedito Nunes (2002, p. 50), a “experiência estética estando subordinada a conceitos, ela também possui valor autônomo, independendo de qualquer finalidade exterior: é um fim em si mesma”. Além do mais, a concepção estética não restringe a qualidade estética à Beleza ou ao Belo, pois há outras qualidades estéticas como a elegância, graça, pungência, entre outras.

Referências:

GARDNER, Sebastian. Estética. In: BUNNIN, Nicholas; TSUI-JAMES, E. P. Compêndio de filosofia. Tradução Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

MELANI, Ricardo. Diálogo: primeiros estudos em filosofia. 1 ed. são Paulo: Moderna, 2013.

NUNES, Benedito. Introdução à Filosofia da arte. 5ª ed. 3ª imp. São Paulo: Editora Ática, 2002.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Uma lembrança de Maquiavel.

Deveis saber, assim, que dois modos há de combater: um pelas leis; outro pela força. O primeiro é natural do homem; o segundo, dos animais. Todavia, como em muitas ocasiões o primeiro não é suficiente, mister se faz recorrer ao segundo.
[...]
E tão simples são os homens, e obedecem tanto às necessidades presentes, que aquele que engana sempre achará a quem enganar.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 2004. p. 109-110. cap. XVIII. (Os pensadores)

terça-feira, 21 de março de 2017

Liberdade: uma síntese do pensamento de Isaiah Berlin sobre o tema

LIBERDADE

Para os gregos antigos a liberdade política significava “ser capaz de participar no governo da cidade”. “Ser livre era não ser forçado a obedecer a leis feitas por outros para alguém, mas por alguém.” Nesta concepção de liberdade, o governo e as leis não distinguem a esfera da vida pública e a esfera da vida privada, isto é, ser livre era ter o direito de participar na elaboração da vida política, mesmo que isto implicasse, quando necessário, em escrutínio e investigação da vida particular. (BERLIN, 2005, p. 160)
No mundo moderno, especialmente a partir da concepção de Benjamim Constant, a ideia de liberdade distingue a existência da esfera da vida privada que deve ser protegida da inconveniência de interferência da autoridade pública. Isto significa que os governos devem ser limitados quanto à possibilidade de interferência na vida privada. Segundo Berlin (2005, p. 161), a visão moderna, também denominada de visão liberal clássica, aponta que em relação à liberdade, há o pressuposto

De que há uma fronteira entre a vida pública e privada; e de que, por menor que possa ser a esfera da vida privada, dentro dela posso fazer o que quiser – viver como me dá prazer, acreditar no que sinto vontade, dizer o que me agrada - , desde que isso não interferia nos direitos semelhantes de outros, nem solape a ordem que torna esse tipo de arranjo possível. (BERLIN, 2005, p. 161)

Contudo, Berlin (2005, p. 161) esclarece que “o pressuposto de que os homens precisam de proteção uns contra os outros e contra o governo é algo que nunca foi plenamente aceito em nenhuma parte do mundo.” A este ponto de vista, ele denomina de visão clássica ou dos gregos antigos e que consiste fundamentalmente, em interferir na vida privada daqueles que são incapazes de por si próprio assumir as responsabilidades por sua própria conduta.
Segundo esta concepção, se há alguns que fazem pelos outros o que eles mesmos fariam por si próprio se o pudessem, esses não interferem na liberdade dos outros, pois “estão interferindo na vida das pessoas assim como elas são, mas apenas para torná-las capazes de fazer o que fariam se soubesse o bastante, ou estivessem sempre em suas melhores condições, em vez de cederem a motivos irracionais, comportarem-se como crianças ou permitirem que o lado animal de sua natureza predomine.” Assim, por exemplo, se os pais obrigam as crianças a irem à escola mesmo sob a relutância destas, não estão restringindo a liberdade delas, mas trazendo à tona o próprio eu das crianças que se manifestará em sua plenitude na maturidade. (BERLIN, 2005, p. 162)
Para Berlin (2005, p. 162), grande parte da autoridade moderna se baseia em uma teoria deste tipo, isto é,

Dizem-nos que obedecer a essas instituições não é senão obedecer a nós mesmos e, portanto não é escravidão, pois essas instituições encarnam em nós mesmos nossas melhores e mais sábias condições e, o autodomínio não é restrição, o auto controle não é escravidão. (BERLIN, 2005, p. 162)

Uma das questões políticas modernas mais fundamentais diz respeito ao embate entre estas duas visões, a saber, a que entende que interferir na vida das pessoas protegendo-as de suas próprias limitações, não é restringir a sua liberdade, e a outra que não nega que o comportamento antissocial deve ser restringido ou que as pessoas possam ser impedidas de causar danos a si mesmas ou aos que estão sob seus cuidados, mas afirma que isto, mesmo que justificado, é restringir a liberdade. (BERLIN, 2005, p. 162-163)
Assim, segundo esta segunda visão

A liberdade pode ter sido restringida para dar lugar a outras coisas boas, segurança, paz ou saúde; ou a liberdade hoje pode ter sido restringida para tornar possível uma liberdade mais ampla amanhã; mas restringir a liberdade não é proporcioná-la, e a coação, por mais justificada que seja, é apenas um valor entre muitos outros, e se é um obstáculo para garantir outros fins igualmente importantes, ou se interfere nas oportunidades de outras pessoas de alcançar esse fins deve ceder o lugar. (BERLIN, 2005, p. 163) 

A análise crítica desta visão, afirma que ela pressupõe uma divisão da vida em privada e pública, mas que esta visão possui um erro fundamental que consiste em desconsiderar que “o ser humano é um só, e na sociedade ideal, quando as faculdades de todos serão desenvolvidas, ninguém jamais vai querer fazer alguma coisa de que os outros se ressintam ou que desejem interromper.” Assim, “o desejo de ser deixado sozinho, ter permissão de fazer o que deseja sem precisar prestar contas disso a algum tribunal [...] esse desejo é um sintoma de desajuste. Pedir que sejamos livre da sociedade é pedir que sejamos livres de nós mesmos.” (BERLIN, 2005, p. 163)
Numa visão orgânica, a separação entre as pessoas é ruim. Os direitos humanos são “necessários numa sociedade má, mas sem lugar num mundo organizado com justiça em que todas as correntes humanas fluem para um único rio humano sem divisões.” (BERLIN, 2005, p. 164)
Na visão liberal

Os direitos humanos, e a ideia de uma esfera privada em que estou livre de escrutínios, são indispensáveis àquele mínimo de independência que todos necessitam, se quiserem se desenvolver, cada um segundo sua própria linha; pois a variedade é da essência da raça humana, e não uma condição efêmera. (BERLIN, 2005, p. 164)

Para Berlin (2005, p. 164)

Os que propõem essa visão acham que a destruição desses direitos para construir uma sociedade humana universal que se orienta por si mesma – todos marchando para os mesmos fins racionais – destrói aquela área de escolha individual, por menor que seja, sem a qual a vida não parece valer a pena.

Em conclusão, Berlin afirma que os regimes autoritários e totalitários têm representado uma dessas visões e a outra tem sido representada pelas democracias liberais. Contudo, é possível estabelecer combinações e variações dessas visões.

Referência bibliográfica:
BERLIN, Isaiah. A força das ideias. Organização Henry Hardy; tradução Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das letras, 2005.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

As três peneiras

Um dia um homem foi consultar o filósofo Sócrates e lhe disse:
- Ouça, Sócrates, eu preciso lhe dizer como foi que seu amigo se comportou.
- Interrompo você de cara! - respondeu Sócrates. - Você pensou em passar pelas três peneiras o que me vai dizer?
E como o homem olhava para ele com olhar de espanto, completou:
- Pois é. Antes de falar, é preciso passar pelas três peneiras o que se vai dizer. Vejamos. A primeira peneira é a da verdade. Você verificou se isso que você tem para me contar está realmente correto?
- Não, eu ouvi dizer e ...
- Tudo bem! Mas suponho que você fez passar pelo menos pela segunda peneira, que é a da bondade. O que você quer me contar é, ao menos, uma coisa boa?
O homem hesitou e depois respondeu:
- Não, infelizmente não é nada de bom, ao contrário...
- Hum!... observou o filósofo. - Ainda assim, vejamos a terceira peneira. O que você está com vontade de me dizer é uma coisa útil para se contar?
- Útil? Não é bem assim...
- Então não falemos mais nisso! - disse Sócrates. - Se o que você tem para me dizer não é verdadeiro, nem bom, nem útil, prefiro ignorá-lo. E até aconselho você a esquecer...
(Apólogo do filósofo grego Sócrates)
In: PIQUEMAL, Michel. Fábulas filosóficas. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009. p.42-43

Os porcos-espinho

Um dia friorento de inverno, os porcos-espinho se grudavam uns com os outros, para se manterem aquecidos. Mas, de tantos se estreitarem, logo sentiram a dor dos espinhos que espetavam e tiveram de se afastar. Quando sentiram muito, muito frio, o instinto os empurrou para se aconchegarem mais. Entretanto, sentiram novamente as picadas dos espinhos. E assim foram juntando-se e se separando diversas vezes, até encontrarem finalmente a distância certa.
(Fábula contada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer - 1788/1860)