quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Estética - Um breve resumo didático


ESTÉTICA

Estética é um ramo da filosofia que se ocupa das questões tradicionalmente ligadas à capacidade humana de perceber o mundo, tais como o belo, o feio, o gosto, a arte, os estilos, as tendências, a criação e a interpretação artística. A estética adquiriu autonomia como área filosófica, com Alexander Baumgarten, no século XVIII, quando ele publicou a obra Aesthetica. A palavra estética vem do grego aisthetikós (ou aisthésis) e pode ser traduzida como percepção, faculdade de sentir, compreensão pelos sentidos etc.
Durante a Antiguidade, a estética era conjugada com as demais áreas da filosofia. Hoje está claro que essa disciplina ocupa-se da capacidade de julgar as emoções e os sentimentos estéticos, ou seja, ocupa-se de nosso senso estético, como se desenvolve, se pode ou não ser condicionado, se é inato, se é adquirido e tem de ser cultivado etc.
Em síntese, a estética reflete racionalmente sobre a capacidade humana de julgar o belo o feio, assim como a gama de sentimentos que nos invadem quando exercemos tal capacidade diante de algo. Por isso, em nosso dia-a-dia, na linguagem coloquial, empregamos o termo estética para fazer alusão à aparência das coisas. O estudo reflexivo da capacidade humana de julgamento do belo e do feio e da percepção que temos do real é muito importante, pois tudo o que consumimos, de alimentos a roupas, de bicicletas a carros, de livros a aparelhos eletroeletrônicos, envolve a estética.

OBJETOS DE ESTUDO

O belo

O belo é o resultado de uma espécie de juízo que exercemos sobre a realidade. Consideramos belo todo objeto ou pessoa que nos suscita determinado prazer estético por meio de sua contemplação. Esse sentimento estético desinteressado pode ser provocado pelas coisas da natureza (pessoas, animais, paisagens etc) ou pelo fruto do engenho humano (arquitetura, arte).
Pensemos um pouco sobre a beleza. Será que existem padrões universais que apontam para modelos de beleza ou trata-se de algo relativo, que está sujeito às variantes históricas e sociais? Visto o problema de outra forma: A beleza é algo que podemos mensurar? Trata-se de algo objetivo, ou seja, está nos objetos? Depende de elementos subjetivos? Se assim for, o conceito de beleza pode mudar de pessoa para pessoa. As respostas a essas perguntas variam no decorrer da história da filosofia.

O feio

O problema do feio está intimamente ligado às questões relativas ao belo, ou melhor, está contido na problemática do belo. Por conclusão lógica, derivada do próprio conceito de belo, o feio seria o que nos provoca sentimento não agradável mediante sua contemplação. A contemplação do feio não é algo gratuito, algo aprazível àquele que o contempla, ao contrário, causa estranheza a este, que faz de tudo para abreviar o contato com o que foi julgado feio. Aqui são pertinentes as mesmas questões propostas em relação ao belo, relativas à subjetividade da feiúra.

O gosto

É uma faculdade autônoma do sentimento cuja atribuição básica é o exercício contínuo da atividade estética. Pode-se, portanto, dizer que através do gosto exercitamos o juízo estético. É justamente o gosto que nos predispõe a julgar os objetos do sentimento, mediante a capacidade que eles têm de nos causar satisfação.
É muito importante salientar que a problemática relativa ao gosto não pode, simplesmente, ser reduzida a uma opção arbitrária e imperativa de nossa subjetividade, dado que pressupõe a integração do conjunto de estruturas subjetivas que operam sobre dados objetivos. Se fecharmos a questão nessa perspectiva arbitrária, o gosto passa a ter caráter irrevogável, monolítico e estático. Assim não há margem para a evolução, para a aprendizagem criativa, para a educação ou mesmo reeducação da sensibilidade, o que gera a estagnação.
Para o aprimoramento, para a educação ou reeducação do gosto frente à potencialidade estética da realidade que nos cerca, nossas faculdades subjetivas precisam estar abertas, prontas para acolher e interessadas mais em conhecer do que em preferir. Assim evitamos os descartes e as adesões a priori da pluralidade do real, permitir que ele fale, estabelecendo, assim, um diálogo e não um monólogo.
Portanto, o gosto é a capacidade de emitir julgamentos estéticos sim, mas sem preconceitos ou posições tendenciosas. O contato direto com a realidade e com as obras deve formar nosso gosto, modificá-lo, educá-lo, destruí-lo, reconstruí-lo etc. Caso nos limitemos a nossos portos seguros, ou seja, àquilo que conhecemos e já sabemos que gostamos dele, não crescemos.

Arte

É uma das formas mais poderosas de expressão humana. Ela é capaz de materializar crenças, convicções, ideologias. É capaz de formar consciência e opinião, mas também é capaz de obscurecer as mentes e anular as opiniões. É capaz de libertar, emancipar, mas pode servir como instrumento de opressão e alienação. O maravilhoso e complexo universo artístico é agora objeto de nossa reflexão.
A arte é uma possibilidade de conhecimento do mundo, pois o conhecimento deste não se limita às ciências, à filosofia e ao mito. A arte não segue o itinerário das outras modalidades de conhecimento, trata-se de um conhecimento intuitivo do real em que estamos inseridos. Toda a pluralidade do real pode ser objeto da arte.

Funções da arte

Função Mimética (relativo a mímese, reprodução, cópia fiel etc.) – diz-se que arte que realiza sua função mimética busca reproduzir de maneira fiel a realidade, quando imita a vida e a natureza. A arte, como mímese, é testemunha fiel da complexidade do real. No entanto, mesmo para reproduzir é preciso ler, desconfiar, interpretar. Assim, a arte em sua função mimética desempenha papel importante na compreensão do mundo em que estamos inseridos. Tal posição sustentou-se, aproximadamente, do século V a. C. ao XIX d. C., até o aparecimento da fotografia, o que levou a uma revisão e reestruturação do papel da arte, especialmente da pintura.

Função criadora da arte

A obra de arte abre horizontes novos e inusitados. Por ela podemos não somente vislumbrar como a realidade é, mas como poderia ser. Em outras palavras, junto e por meio dela, a realidade revela-se a nossos olhos como algo sempre novo, como se jamais a tivéssemos experienciado. Trata-se de uma espécie de transfiguração, quase uma revelação, do existente numa outra realidade, no mundo da obra, que, muitas vezes, tem a capacidade de ir além de onde o artista quis chegar, e revela coisas que independem da vontade e intenção de quem produziu a obra. Trata-se, portanto, de outro paradigma de realidade, em que a própria obra se constitui em real.

Função utilitária

Essa função diz respeito à tentativa de utilização da arte para alcance de fins não artísticos. Aqui a produção artística é avaliada e medida a partir do alcance dos fins exteriores a que se propõe. São muitos os fins não artísticos que fazem da arte um simples meio para atingi-los. Os fins podem ser religiosos, políticos econômicos etc. desta perspectiva, em nenhum momento, nem em sua avaliação (que leva em consideração aspectos morais e os fins almejados), a arte é encarada de maneira estética.


CONCEPÇÕES ESTÉTICAS

PLATÃO: uma visão negativa da arte

A famosa teoria platônica das ideias, que divide o universo em mundo sensível (material e inferior) e o mundo inteligível (espiritual, imaterial e superior), é a chave de compreensão da teoria estética de Platão. Segundo essa teoria, nossa grande missão é, por meio de várias vidas, libertarmo-nos das amarras do mundo sensível, pois ele não passa de uma cópia do mundo das ideias. Como faríamos isso? Ora, teríamos de buscar o conhecimento verdadeiro (episteme), o conhecimento do mundo ideal. O alcance do conhecimento verdadeiro aconteceria pela reminiscência (lembrança) do que nossas almas, outrora presentes no mundo ideal, presenciaram nele. Não podemos, portanto, iludir-nos com o mundo das cópias, das sombras e das aparências, isto é, com o mundo sensível. Para Platão, a arte era essencialmente mímese (mímesis), então, reproduzia o mundo sensível. Reflitamos: se o mundo sensível já é uma cópia do mundo ideal, então a arte é uma cópia da cópia.
Dessa maneira, a arte em nada nos ajuda a alcançar o conhecimento verdadeiro, ao contrário, afasta-nos dele, uma vez que nos distancia do mundo ideal. Do ponto de vista gnosiológico (conhecimento), a arte é infinitamente inferior à ciência, e deve ser evitada.
Quando Platão fala que a arte está voltada para as partes irracionais da alma (concupiscível e irascível), ele cria resistência à arte também com relação à questão da moral, pois, atuando diretamente sobre nossos sentidos, a arte acaba nos cegando, faz com que percamos a noção do bem e do mal, do certo e do errado.
Com relação à música, Platão tem visão extremamente otimista, é muito importante salientar que ele não considera a música exatamente uma arte. Na trilha de Pitágoras, o filósofo ateniense julga que a música é uma espécie de harmonia divina. Além disso, Platão coloca a música em quarto lugar entre as ciências propedêuticas, atrás da aritmética, geometria plana e sólida e astronomia.

ARISTÓTELES: uma visão positiva da arte

Também na estética o discípulo gradualmente se distancia do mestre. Mesmo compartilhando com Platão o pensamento de que a arte é essencialmente mímese, há entre Aristóteles e Platão diferenças marcantes. Enquanto para Platão a mímese é alienadora, mentirosa e nada tem a acrescentar, para Aristóteles, a mímese é um momento único de intercâmbio, em que o artista tem a chance e o poder de acrescentar algo ao real. Por isso, nesse novo contexto, a mímese não é pura imitação, mas criação que envolve iniciativa e criatividade. Mediante sua capacidade criativa, o artista pode transpor os limites da natureza.
No que diz respeito à tragédia, ela é a mímese de uma ação, de um acontecimento, e não das paixões. É um processo ativo de seleção de partes para apresentação. Não é passivo, cópia automática, como supunha Platão. Aristóteles traz de volta a necessidade da habilidade para fazer poesia: o poeta é um compositor-criador de tramas, e não de versos. Embora a poesia não seja mímese do universal, Aristóteles sustenta que, mesmo que os objetos da mímese não sejam universais, eles podem resultar em um processo que apresente universais, porque a tragédia não trata de assuntos banais.

ESTÉTICA MEDIEVAL

Durante a Idade Média, as artes não eram muito valorizadas, a não ser como instrumento da catequização e de culto. A influência da Igreja Católica era enorme. A busca pelo belo era identificada pelo cristianismo predominantemente como a busca do espírito humano por Deus. Dessa forma, o cristianismo contribuiu para edificar e difundir uma nova concepção da beleza, cujo fundamento era a identificação de Deus com a beleza, o bem e a verdade.
Nesse contexto, apesar de, como sabemos, ser um representante da Antiguidade tardia, Santo Agostinho concebeu a beleza como um todo harmonioso, isto é, comunidade, número, igualdade, proporção e ordem, reflexo da perfeição e beleza do Todo-poderoso e de sua obra. Assim, Deus, de onde tudo emana e pelo qual todas as coisas adquirem sentido, é a fonte inesgotável de toda beleza e perfeição.
São Tomás de Aquino identificou a beleza com o bem. Como em Santo Agostinho, a beleza perfeita identifica-se com Deus. As coisas belas têm três características ou condições fundamentais, e as coisas feias são seus opostos.
Vejamos: Integridade ou perfeição (o inacabado ou fragmentário é feio); A proporção ou harmonia (a assimetria e a desarmonia são feias); A claridade ou luminosidade (a escuridão é feia).

CONCEPÇÃO EMPIRISTA E IDEALISTA

Os filósofos empiristas, como David Hume (século XVIII), relativizam a beleza, reduzindo-a ao gosto de cada um. Aquilo que depende do gosto e da opinião pessoal não pode ser discutido racionalmente, donde o ditado: “Gosto não se discute”. O belo, nessa perspectiva, não está mais no objeto, mas nas condições de recepção do sujeito.
Hegel (século XIX) foi um filósofo que trabalhou a questão da beleza numa perspectiva histórica. Para ele, o relativo consenso acerca de quais são as coisas belas mostra apenas que o entendimento do que é belo depende do momento histórico e do desenvolvimento cultural. (...) Por isso, em Hegel, a beleza artística não diz respeito apenas à sensação de prazer que determinada obra possa proporcionar, mas à capacidade que ela tem de sintetizar um dado conteúdo cultural de um momento histórico. Em outras palavras, a arte não é apenas fruição, mas tem como função mostrar, de modo sensível, a evolução espiritual dos homens ao longo da história.

KANT: o juízo estético, o belo e sublime

Todos os seres humanos emitem juízos estéticos! Essa é a construção que dá início ao itinerário percorrido por Kant para resolver o problema da objetividade ou subjetividade da estética. É evidente, em Kant, a preferência pela segunda opção. “Aquilo que é puramente subjetivo na representação de um objeto, isto é, o que constitui a sua relação ao sujeito, e não ao objeto, é a sua qualidade estética”.
Diante da existência inconteste dos juízos estéticos, o filósofo prussiano levanta duas questões de capital importância: O que é o belo manifestado no juízo estético? Qual é a estrutura, o fundamento que possibilita o juízo estético?
Em resposta à primeira questão, Kant atesta que o belo não existe de maneira objetiva nas coisas, mas é fruto da relação entre sujeito e objeto. Respondendo a segunda questão, Kant diz que o juízo estético é fruto do livre jogo das estruturas cognitivas e da imaginação (o que confere ao juízo status de universal), capaz de produzir um prazer desinteressado, de nos direcionar para uma “finalidade sem fim e de nos fazer compreender a escrita cifrada por meio da qual a natureza fala conosco em suas belas formas”.
Segundo Kant, o belo e o sublime têm em comum a característica de agradar por si mesmos, de maneira desinteressada, universal e necessária, uma vez que são por excelência subjetivos. A diferença está no fato de que o belo diz respeito à particularidade do objeto em sua relação com o sujeito, e essa condição torna-o realmente limitado, ao passo que o sublime também diz respeito ao supra-sensível, que é informe e que, como tal, implica a representação do ilimitado.
Dessa forma, o objeto não é sublime, mas desperta o sentimento do sublime, ou seja, somos induzidos a projetar no objeto a ideia de sublime que ele fez despertar em nós. O sublime não é de forma alguma objetivo, diz respeito ao sujeito. É pela experiência do sublime que tomamos consciência de que podemos ultrapassar as barreiras sensoriais. “O sublime é pois essencialmente espírito; o sentimento do sublime nos enleva deste mundo e nos abre, por assim dizer, as portas do supra-sensível” (Pascal).

Texto extraído de: GARCIA, José Roberto & VELOSO, Valdecir da Conceição.  Eureka: construindo cidadãos reflexivos. Florianópolis: Sophos, 2007.
Texto elaborado pela professora de filosofia do Colégio Batista Daniel de La Touche Rute Amorim.

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Grato pela avaliação, créditos devidamente debitados na conta da autora.

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  2. Tive ensinar a meu filho, e em busca na net, encontrei este excelente texto. o que me facilitou bastante pela clareza e objetividade..... Parabéns.

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  3. Grande texto e bons fundamentos consegui fazer meu trabalho de investigação a partir deste texto obrigado

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