sábado, 6 de setembro de 2008

Filosofar ou viver?

Dias desses, vendo à TV (na verdade mais ouvindo) enquanto me arrumava para ir ao trabalho, uma chamada de intervalo em um programa de entrevistas, que não sei bem o nome, me chamou a atenção por dizer algo como: “No próximo bloco: filosofar ou viver? Você saberá o que pensa... (o entrevistado).” Confesso que este não foi um programa que mereceu a minha maior atenção. Meu contato com ele foi mais o resultado de um zapping (não sei se é assim que se escreve, mas o que significa é mudar constantemente de canal com o controle remoto) comum em meu cotidiano televisivo do que uma audiência deliberada.
O que quero com isto? Pretendo comentar uma inquietação que se fez em mim a partir da frase que parecia problematizar: “Filosofar ou viver?”. Embora em dúvidas quanto à qualidade da discussão que o programa tenha estabelecido, coisa que não posso garantir pois não vi a continuidade do bloco após os comerciais, acredito na possibilidade de uma discussão filosófica sobre o tema.
A pergunta “filosofar ou viver?” é de cunho filosófico visto referir-se à uma inquietação sobre a própria vida ou sobre o próprio ato de filosofar. Ela nos remete à cantiga cantarolada pelo baiano Leãozinho a partir das palavras do poeta que diz que “navegar é preciso, viver não é preciso”. Para o dilema, então, a arte já apresenta uma resposta, embora ele não se refira à arte, mas sim à filosofia. Se viver não é preciso, então a resposta nos leva ao navegar que, por sua vez, não se distingue tanto assim do filosofar. A opção pelo viver, de outro lado, nos remete necessariamente ao filosofar.
Senão vejamos: se alguém optar por viver, isto implica na necessária problematização sobre a vida por meio de indagações como: o que é a vida? Como se deve vivê-la? Poderíamos entendê-la sobre outros significados que não aqueles com os quais estamos acostumados? Ela, a vida, se encerra com a morte ou é apenas uma nova etapa? Que sentidos têm? Deste modo, ao se escolher viver, não se pode furtar ao filosofar, pois é por seu meio que a própria vida passa a ter sentido. A não ser que se viva como o samba canta: “deixa a vida me levar, vida leva eu”. Mas, mesmo assim, há espaços para o filosofar, visto ainda ser possível perguntar filosoficamente para onde a vida leva ou quem é aquele que se deixa levar pela vida.
No caso de se ir diretamente ao ponto, ou seja, ao filosofar, aquele que opta por tal caminho se encontrará com a própria vida. Por meio do filosofar o viver só pode ser enriquecido e ampliado. É por tal atitude que a vida se esclarece em seus sentidos. As respostas às inquietações se apresentam e se possibilitam. Pode-se viver sem filosofar, mas com ele o viver se amplia e se consolida como uma atividade significativa e consciente.
Quanto á poesia que enaltece a necessidade do navegar e a contingência do viver, compreendo que para navegar (que é preciso) mares são exigidos para serem desbravados e desbravadores para desbravá-los. Esses devem possuir espírito inquieto e aventureiro para buscarem o desconhecido e misterioso que se encontra no além horizonte e nisto se assemelhariam aos que optam por filosofar.
Rogério Andrade

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